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Vem a propósito do Dia Mundial da Criança: Que é feito do Otelindo?

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Uma das recordações mais gratas que guardo do início do período da minha adolescência, foi ter conhecido um sujeito chamado Otelindo, de ascendência cabo-verdiana, que jogava à bola connosco.

Fazia-o descalço. Sem nada nos pés, pontapeava a bola a grande distância, no pelado onde desafiávamos a gravidade, chutando a bola tão alto que parecia não querer mais cair. Às vezes, no capô de um carro, que o dono ia depois estacionar noutro lugar, à espera de não ver cair-lhe em cima nenhum objeto ainda mais pesado.

Otelindo jogava connosco futebol num campo pelado com balizas de madeira feitas por nós, para onde tantas vezes chutava com êxito que todos queriam tê-lo na sua equipa. Era esquerdino. Um esquerdino exímio, que me recordo, como se fosse hoje, de ver marcar golos à Messi, daqueles em que fintava todos os adversários que lhe saíam ao caminho e entrava com a bola pela baliza adentro, e só ainda não irritavam alguns portugueses, deixando-os com azia, porque nesse tempo em que ainda nem o argentino era nascido, não contribuíam para fazer concorrência a Ronaldo na disputa pelo prémio da Bola de Ouro.

Tinha a pele morena de um caboclo, era de estatura média e possuía cabelo escurinho tipo black curly, como dizem os ingleses, embora acredite piamente em que na Língua dos nativos de Cabo Verde, o Crioulo, em apenas uma palavra se consiga praticamente dizer a mesma coisa.

Otelindo tinha mulher e filhos, mas deixara-os em casa, a espreitar da janela por onde se via o mar do qual voltaria feliz dos seis meses de trabalho passados no mar, por não ter enjoado com tamanhos balanços, nem à ida nem à volta. Desde que se lembra, o sonho de Otelindo era viajar, palmilhar o mundo, mesmo que isso agora representasse os passos dados no convés às ordens de um capitão que queria ver chegar o navio irrepreensivelmente limpo a qualquer lugar do mundo onde os levasse.

Não era uma profissão de sonho, aquela de embarcadiço, porém, sempre era melhor do que imaginar que longe da aldeia onde nasceu, o mundo inteiro era um lugar que não valia a pena conhecer, nem que fosse à custa do trabalho árduo de limpeza de um navio de transporte de contentores, entre cidades costeiras de países que ele já conhecia de saber apontar no mapa onde ficavam.

Entrou em Portugal, no decurso de uma viagem na qual rumava a Roterdão e já nessa altura Lisboa era bom cais de chegada mesmo para velejadores que não tivessem vindo à procura de refúgio de alguma tempestade em alto-mar.

Na Lisboa pré-expo noventa e oito, não constava ainda dos roteiros de férias, nenhum oceanário ou pavilhão do Conhecimento que, mediante os desafios propostos, aumentasse o número de perguntas para as quais não obtínhamos resposta. Era uma cidade amorfa, que do cimo de qualquer uma das suas sete colinas, em nada se parecia com uma cidade que valera a pena conquistar por D. Afonso Henriques aos mouros, sacrificando tantas vidas humanas. De prédios baixos, à altura da fraca ambição de um povo que jamais se aventuraria dando a conhecer novos mundos ao mundo, a bordo de frágeis caravelas, oferecia poucos motivos de interesse. A recortar a paisagem, não se avistavam ao longe, os arranha-céus nova-iorquinos que até Colombo teria vislumbrado na viagem inaugural que fez à América. No entanto, mesmo sem esses atrativos que fizeram das principais cidades norte-americanas um destino de férias ou lazer apetecido para muitos, na capital portuguesa já se anteviam sinais de progresso, e um deles devia ser a ideia de que dos terrenos de vários hectares onde funcionava há muitos anos, haviam de ser expropriados os donos da Feira Popular, para aí ser montado um qualquer negócio que haveria de trazer mais benefícios aos lisboetas.

Descobrimo-lo um dia em que tínhamos tão poucos elementos para formar duas equipas, que teríamos aceitado nem que fosse a oferta de uma menina que se nos quisesse juntar. Demos-lhe a bola e mostrou como se dava toques sem deixá-la cair no chão, só depois percebi que já devia andar a observar-nos há algum tempo, pois só aceitou fazer parte da equipa do Quim que era, a meu ver, de longe o nosso jogador de maiores recursos.

Custava tirar-lhe a bola. O esférico colava-se-lhe aos pés, tornando árdua a tarefa do adversário que pretendesse desarmá-lo sem recorrer à falta. Nas jogadas ao ataque, Otelindo fintava e corria, e por isso faziam questão em que ele iniciasse as jogadas, como se só valessem os golos nascidos de lances que tinham passado pelos seus pés. Já a defender, dava-se o inverso, passava aos colegas menos dotados tecnicamente do que ele, essa parcela do esforço de recuperar bolas e dava-se por feliz de saber que não tinha sido por correr atrás de nenhum adversário, que ele com receio de perder a bola tinha tentado a sorte de longe e, por sinal, até tinha conseguido marcar um golo de belíssimo efeito.

Jogámos muitas vezes juntos e chegámos a ser opositores. Eu, o Carlitos, o Pedro e o Zé. O Quim, o Beto, o Brás e o Bonami. E muitos outros, de quem já não me lembro tão bem, como seria se me tivessem vindo ontem recordar algum episódio relacionado com a infância que valesse a pena contar a seu respeito.

Envolto numa cortina de nevoeiro, não consigo recordar-me ao fim de quanto tempo passado connosco partiu, levando-nos à certa com a velha ideia de que se um bom filho à casa torna, então ainda voltaria a tempo de ver-nos crescer. Muito antes de entrarem na Faculdade os primeiros de nós a reconhecerem que para uma outra profissão talvez tivessem mais jeito do que para jogar futebol e, por isso, o melhor seria tirar uma licenciatura.

A minha grata lembrança é a de que Otelindo era um bom sujeito. E, passados estes anos (quase quarenta), concluo que talvez o devamos interpretar como o anteprojeto final daquilo em que se deviam ter tornado todos os homens: criaturas boas perante quem nunca precisaríamos de evocar a presença de Deus, simplesmente por que Ele já lá estava.

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