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A enganadora boa aparência de um hospital…

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É certo e sabido que ninguém gosta de frequentar um hospital. Bom, a menos que se trate de um hipocondríaco nato. Nesse caso, o hospital pode transparecer a ideia de ser um local acolhedor e de extrema segurança. Mas, regra geral, ninguém aprecia ter de se deslocar até a um hospital. Eu não fujo à essa regra.

Há uns dias atrás, tive de me deslocar até a um hospital para acompanhar um grande amigo de infância que se estava a sentir muito mal, vomitando intensamente há três dias consecutivos sem parar. Como habitamos na zona do Barreiro, tivemos de nos deslocar até ao hospital do Barreiro.

O meu amigo estava bastante fraco e não se conseguia manter de pé. À chegada ao hospital, mesmo estando em condições muito debilitadas, ele profere uma frase que até a mim apanhou de surpresa: “Ena, o hospital está espectacular. As obras valeram a pena! Isto está muito catita!”

Ele tinha razão. O hospital estava, de facto, com um aspecto bastante acolhedor e renovado. Toda aquela imagem de um hospital velho, que fazia as pessoas sentirem-se mais mal do que quando lá entraram, tinha sido alterado para algo diferente e um pouco mais animador. Como se fosse possível uma pessoa sentir-se bem num hospital, mas a verdade é que existia uma aura diferente do habitual em relação ao que se sucedia no passado – antes das obras. Era como se, ao entrar pelas portas do hospital, uma espécie de brisa animadora invadisse o novo espírito, e ficássemos com a ideia que tudo estava bem, que tudo ia ficar óptimo muito rapidamente.

Entrámos para a triagem e, depois de facultarem uma cadeira de rodas para o meu amigo se sentar, porque estava com muitas tonturas, lá nos dirigimos para a sala de espera. Um pormenor. Existem agora duas salas de espera diferenciadas. Uma para as pessoas com pulseira verde e outra para os caso mais urgentes e complicados, com pulseira amarela, laranja ou mesmo vermelha. Fomos direcionados para a sala de espera dos casos mais graves e lá ficámos, ele estacionado a um canto e eu sentado no chão ao seu lado. A sala tinha algumas pessoas, mas nada de muito alarmante. Trocámos a ideia um com o outro que, muito provavelmente, aquilo não iria durar muito tempo. Ia ser rápido. Como estávamos tão enganados…

Um hospital com um aspecto tão acolhedor, mas tudo continuava igual. A meu ver, o hospital do Barreiro, ao fazer entrevistas para os cargos de médicos, enfermeiros ou auxiliares da saúde, possui um requisito muito enraizado: só pode lá trabalhar quem possui um gosto especial pela aclamada série “The Walking Dead”. Para trabalhar no hospital do Barreiro, as pessoas necessitam de se comportar da seguinte maneira: 1) mover-se vagarosamente, como se estivessem sempre a pedir autorização às próprias pernas para se moverem; 2) falarem muito baixinho, quase sussurrando, como se sentissem uma espécie de dormência ao nível dos lábios e cordas vocais e não conseguissem de forma alguma mostrar mais energia; 3) mostrar uma total falta de sensibilidade e quase desprezo pelas pessoas que ali estão, doentes, à espera que a sua vida melhore e consigam sair daquele sufoco.

Quem conseguir reunir estes três requisitos, automaticamente está considerado válido e apto para laborar no hospital do Barreiro. Segundo o Método de Triagem de Manchester, o doente que possua uma pulseira amarela, normalmente tem um tempo de espera de 60 minutos. Ora, isso nunca acontece num hospital público, quanto mais no hospital do Barreiro, onde abundam em demasia verdadeiros fãs de “The Walkind Dead”. Fomos atendidos só passadas três horas depois de lá entrarmos naquele hospital com um aspecto tão acolhedor depois das obras que lá foram feitas. Seis horas depois, lá estávamos a sair do hospital, em direcção a casa, já contagiados com a ideologia praticada no hospital, falando um com o outro a sussurrar, e a pedir autorização às pernas para andar a cada passo que tínhamos de dar.

Chegámos a casa e fomos ver um episódio da nova temporada de “The Walking Dead”, só para continuar no espírito daquele ambiente super acolhedor com que o hospital do Barreiro presenteia os utentes à chegada.

Isto é que é uma Vida de Cão, hein…

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