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Alice no país da kizomba e do hip-hop

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Ao mesmo tempo em dois canais generalistas da televisão portuguesa, passava um género musical de que Alice não gostava mesmo nada, pela simples razão de achar que a um ritmo de dança monótono, que consistia em andar em passos curtos a sacudir os braços como se quisessem soltá-los, estar sempre associada uma letra de rimas desencontradas: o Hip-hop.

Desagradava-lhe sobremaneira que ultimamente na rádio e na televisão viesse a ganhar terreno, o darem maior destaque à maneira da apresentação de uma canção a falar, do que da forma tradicional, que era a mais indicada para dar igualmente a conhecer um bom cantor. E para Alice havia tantos e tão bons neste país, que somente teria dificuldade em pô-los por ordem decrescente se lhe pedissem para elaborar uma lista dos dez ou vinte da sua preferência.

Como gostava particularmente de música romântica, tinha pelas letras das canções do cantor Emanuel uma paixão de levar às lágrimas. Todavia, era nas simplesmente elaboradas de Tony Carreira, em cujos versos tanto ele descrevia um amor eterno como uma relação precocemente terminada, que gostaria de acreditar se achasse que era ela a mulher a quem ele dedicava as suas quadras de amor.

Mas Alice tinha também uma predileção por outro género de batida. Embora tivesse quarenta e oito anos, continuava a gostar, como na adolescência, da chamada roqueira, embora por ser extremamente romântica preferisse que essas bandas só tocassem baladas ao estilo de “Still loving you” interpretada pelos alemães Scorpions.

De resto, no caso dela e não só, este e “Here I go again” dos Whitesnake, tinham sido os dois temas que haviam embalado na adolescência uma geração de fans que desconheciam do que eram feitas as más canções, e ao mesmo tempo ignoravam que das más frases que era possível compor com as letras que na escola aprenderam a juntar, é que mais tarde haveriam de ser feitas as letras das canções de hip-hop, cujos cantores, vestindo de forma andrajosa, cantavam sem observar as regras de pronunciar as sílabas, como se quisessem, pela garganta, expulsá-las do corpo que era uma espécie de território sagrado que devia manter-se imaculado.

E o mesmo dizia Alice em relação à kizomba, embora de forma menos contundente. O ritmo africano só tinha ponta por onde pegar, se fosse para apontar o par de dançarinos que se arrastava na pista de dança, como o exemplo de alguém em franco progresso, que tinha começado por gostar de hip-hop e agora numa fase mais adiantada, gostava de quizomba, antes de acabar como ela, vindo a gostar da chamada música Pimba.

É que Alice mostrava-se irredutível em matéria de bom gosto e, para exibi-lo aos olhos do todos, vestia-se com elegância, tendo o cuidado para nunca sair de casa mal penteada ou pondo sapatos pretos se a tiracolo levasse uma bolsa castanha, que era como imaginava que sairia à rua a namorada ou a mulher de um desses artistas a quem, para deixar satisfeitos em palco, bastaria dizer que toda a roupa lhe assentava mal e, nem que engordasse dez quilos, passaria a ter cú para encher as calças largueironas que mais pareciam uma saca de serapilheira onde se tinha enfiado à pressa.

Decidiu finalmente desligar o aparelho disposta a não mais liga-lo nessa tarde, no momento em que, em favor da compra de um produto para calcificar os ossos, se via um apresentador sem gravata a debitar um discurso ensaiado como se fosse um político na Assembleia da República.

Sentou-se na sala e pôs-se a ler um livro em que mal teria chegado a meio do primeiro parágrafo e já quereria ir para a rua, na esperança de ver alguma coisa do quotidiano que, à refeição, merecesse a pena contar ao filho de dezassete anos, mas desde que não o inspirasse a fechar-se no quarto e às escuras compor uma letra de hip-hop em que, segundo os amigos, era tão bom que até parecia que na escola era o que andava a aprender a fazer.

FIM

E para comprovar que as músicas era mesmo boas, aqui vão elas:

 

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