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Amigos Imaginários – Quem Não os Tem?

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Amigos há muitos: os verdadeiros, os falsos, os para sempre, os que apenas o são durante algum tempo, os da escola, os da universidade, os do trabalho, os da terra/bairro onde nascemos e lá pelo meio, embora um pouco esquecidos no meio disto tudo, também estão os imaginários. E, como já deve ter reparado, é precisamente sobre os amigos imaginários que versará esta crónica. Aqui haverá sinceridade, confissões e o desvendar de um segredo (que aposto que muitos leitores também possuem!). Sim, esta é mais uma edição do “Desnecessariamente Complicado”!

Antes de mais que venha a parte “séria” do tema. Durante muitos anos os amigos imaginários foram não só desencorajados como considerados prejudiciais para as crianças. Diziam os especialistas que as crianças que os tinham possuíam certamente algum atraso no desenvolvimento, sendo tarefa dos progenitores explicar que não eram reais. Felizmente tudo isso faz parte do passado e, actualmente, tal já é aceite pela maioria dos especialistas. Pois parece que não só não são prejudiciais como são, afinal, benéficos! Exacto, precisamente o oposto! Consta que as crianças que os possuem conseguem articular frases complexas mais cedo do que seria suposto, tendo um maior e melhor vocabulário, uma imaginação mais rica e dando-se melhor com os colegas e amigos.

Eu, pessoalmente, não tenho qualquer pudor em confessar que…tive um amigo imaginário (eu disse que ia desvendar um segredo…). Tive e ainda tenho, de vez em quando, verdade seja dita. Mas os leitores mais antigos do Mais Opinião (e, em particular, do “Desnecessariamente Complicado”) estão agora a dizer: “Espera aí…segredo como quem diz, porque tu já tinhas revelado isso numa antiga crónica tua!”. E sabem que mais? Eles têm toda a razão. Na crónica intitulada “Eu, filho único, me confesso” (que podem ler aqui: https://www.maisopiniao.com/eu-filho-unico-me-confesso-bruno-neves/) falo um pouco desse tema. Contudo apenas o abordo de fugida e não de forma aprofundada. Daí a necessidade de voltar a ele na crónica desta semana.

Dizia eu a 23/06/2013 (como assim “2013”? Já passou assim tanto tempo? Pois, parece que sim…e isso faz-me sentir velho…): Eu nunca estive sozinho porque estava…comigo mesmo. Bastava fazer uma voz diferente e inventar umas falas quaisquer malucas e era como se tivesse outra criança com quem brincar. Eu bem sei que não tem nada haver, mas quando se é filho único é melhor brincarmos com um amigo imaginário do que sozinhos. Ou seja, acabei por ganhar uma imaginação que hoje em dia me dá muito jeito e que muito provavelmente não teria ganho caso tivesse um irmão”. E, dois anos depois, reafirmo tudo o que está transcrito acima.

Até porque ainda hoje em dia me socorro do meu amigo imaginário. Não há crónica minha do Mais Opinião (ou dos outros locais com os quais colaboro…cof…cof…) que antes de existir não tenha sido “discutida” entre nós (entenda-se: eu e o meu amigo imaginário). Das questões mais elementares às mais complexas nada é deixado ao acaso (“Fará sentido este tema? Será que já falei disto anteriormente e não me lembro? De que forma posso falar deste tema? Será que o que tenho para dizer sobre isto merece uma crónica?” Bom, vocês já perceberam a lógica…).

Continuo a acreditar piamente que os amigos imaginários só trazem benefícios. Eu era apenas uma criança, no entanto sabia que o meu amigo imaginário era apenas isso mesmo: imaginário. Eu sabia que ele não existia, que não era de “carne e osso”, que não estava comigo nas aulas ou no recreio. Mas também sabia que podia recorrer a ele sempre que sentisse necessidade. Se tivesse medo podia falar com ele (e isso ajudava-me a afastar o medo, e o pânico, e a voltar à realidade). Se tivesse descoberto algo novo ou tivesse alguma notícia para contar podia falar com ele (ele iria escutar o que tinha para dizer, não me ia ignorar ou fazer de conta que não me ouvia). Se tivesse triste podia desabafar com ele (ele iria compreender a minha mágoa, ajudar-me a limpar as lágrimas e incentivar-me a reerguer-me). No fundo é como se fosse um “melhor amigo portátil”: estava sempre comigo, ia ouvir-me sempre, dava-me conselhos (infelizmente não me podia dar concelhos…) e nunca se fartava de mim.

Claro que não sou ingénuo e sei que muitas crianças podem não ter a mesma clareza de espírito que eu sempre tive. Daí ser necessário os pais (e os avós, primos, tios, etc) estarem atentos. Se o vosso filho falar sozinho de forma constante, agindo como se estivesse uma pessoa ao seu lado, isso pode não ser nada…mas também pode ser alguma coisa. Na dúvida informem-se junto do pediatra ou do médico de família (isto se forem sortudos ao ponto de ter um, claro) do vosso filho. Mais vale fazer a questão e não ser nada, a evitar o assunto e ter em casa um problema sem saber!

Sempre que este assunto é discutido entre amigos são colocadas as mesmas questões: “era um amigo ou uma amiga?”; “como é que ele se chamava?”; “do que é que falavam?”; “apenas tu falavas com ele ou ele também falava contigo?”. Enfim, vocês (os que tiveram/têm amigos imaginários) sabem do que falo. Primeiro: quando criamos o nosso amigo imaginário somos crianças, logo não pensamos em todos esses detalhes! Segundo: dizemos “amigo” mas sem pensar se é rapaz ou rapariga, contudo é normal que o amigo seja do mesmo género que nós. Porquê? Porque nas idades em que é normal surgirem os amigos imaginários não pensamos no sexo oposto como os adolescentes/adultos. No fundo é aquela idade onde a reacção a um beijo entre namorados mais rapidamente é “blagh” do que “uhuh, quero experimentar!”. Terceiro: as conversas giravam inevitavelmente em torno do dia-a-dia de uma criança daquela idade, e das euforias e angústias que a mesma poderia ter. Não pensem que dissertamos sobre o sentido da vida ou sobre a existência, ou não, de Deus.

Os mais atentos perceberam imediatamente a imagem que está em destaque no topo desta crónica. É retirada do filme “Inside Out” (ou, em português, “Divertida Mente” se preferirem), que muito recentemente arrebatou o coração de crianças e adultos um pouco por todo o mundo, e mostra não só a “Alegria” e a “Tristeza” como também “Bing Bong”. O ser cor-de-rosa, meio gato, meio elefante consegue agarrar-nos ao ecrã levando-nos não só a profundas gargalhadas como a sentidas lágrimas. Mas, o mais importante, é que trouxe para o centro da discussão a importância dos amigos imaginários. Por diversas vezes o cinema tinha abordado, ao de leve refira-se, este tema, mas nunca com tanto impacto.

É incrível como nos conseguimos identificar com “Bing Bong”. Se tiveram/têm amigos imaginários vão a-do-rar o “Inside Out”. As gargalhadas são saborosas e as lágrimas são sentidas. É a magia do cinema no seu estado mais puro. Ainda o filme não acabou e já tinha saudades de todas aquelas personagens. Poucos filmes me marcaram tanto como “Inside Out”.

Sobre o filme apenas vos digo uma coisa: vejam! Não importa se são adolescentes ou adultos de barba rija, vejam, a sério! Acreditem que não se vão arrepender! Ir ao cinema ver o “Divertida Mente” foi das melhores decisões que tomei este ano (embora o facto de ser um dos poucos adultos a estar na sala de livre vontade e não por arrasto de uma criança tenha sido meio estranho…). Deixem de lado os preconceitos para com os filmes de animação e disfrutem de um dos melhores filmes de sempre sobre a infância, as memórias e os amigos imaginários!

Quanto a vocês, sabem o que vos digo? Se muito boa gente tivesse amigos imaginários talvez não dissesse tantas bacuradas sem sentido. Sim, porque isto de pensar e discutir os assuntos antes de os dizer/escrever, pode ter efeitos fantásticos, acreditem!

Agora vão lá à vossa vida que tenho de fazer uma videochamada pelo Skype com o meu amigo imaginário! Até para a semana estimados, e ousados, leitores. Até para a semana!

Boa semana.
Boas leituras.

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