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As fábulas dos famosos – Marcelo Rebelo de Sousa e a mosca tsé-tsé

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Na Idade Média, eram muito populares entre as povoações das aldeias, os trovadores que pululavam de localidade em localidade a cantarolar canções que, em muitos casos, ridicularizavam alguém ou algum acontecimento que tivesse tido lugar.

A maioria deles, munido de uma guitarra de oito cordas, em troca de quase nada exibia os seus dotes artísticos para uma multidão que escutava atentamente aquelas canções de que nem sempre se conhecia o autor, recebendo a possibilidade de pernoitar nesse lugar sob um teto de telhas e ainda podendo desfrutar de uma refeição quente que sempre os fazia ter vontade de regressar numa ocasião futura.

A norte do maciço montanhoso da Serra da Estrela, o mais justamente afamado de todos eles, era um sujeito jovial de nome de batismo Marcelo Rebelo de Sousa, compositor das suas próprias melodias e por onde tinha a fortuna de passar, era muito justamente recordado. Nessas paragens era usual em determinadas alturas do ano se fazerem festas em honra de alguma pessoa ou de um Santo, porém, à sua passagem o que dali em diante as pessoas mais passavam a comemorar era o facto de ele lá ter ido, com a sua simpatia distribuir beijinhos e abraços transformados em afetos que tão cedo ninguém de boa memória esqueceria.

Um dia, após uma longa jornada desde o último sítio onde pernoitara, entrou numa aldeia serrana e estranhou ver as ruas desertas. Não vislumbrou movimento de gente nem animais e até a água de uma pequena fonte tinha parado de jorrar. Parou numa praça e sentou-se num banco de pedra defronte de uma Igreja de aspeto robusto, de seguida pôs a guitarra a jeito e começou a dedilhar uma melodia entoando uma canção que parecia adequada a que os habitantes viessem ao exterior espreitar o que se passava.

O instrumento vibrava aconchegado nas suas mãos, reproduzindo as notas mais agudas em tom elevado, capaz de facilmente ferir os tímpanos de quem só estivesse em casa porque na rua nunca acontecia nada de interessante. Fazia muito frio e não sairia à rua quem não soubesse que só estaria em condições de enfrentar as baixas temperaturas, trajando um bom agasalho. Na esperança de se fazer ouvir, Marcelo aumentou o volume de voz, uns decibéis acima do esperado, quase gritando como se o fizesse, no intuito de corrigir, a uma criança que tivesse feito uma traquinice muito grave.

Nisto, aconteceu o imprevisto. Perto dali, viu um bando de moscas a esvoaçarem como se combinassem uma estratégia de ataque à sua pessoa. Até que finalmente saiu de entre elas, uma que se lhe dirigiu, indo segredar-lhe ao ouvido:

– Olá, eu sou o chefe destas moscas todas e tu quem és?

– Chamo-me Marcelo Rebelo de Sousa, sou trovador e vim cantar. – Respondeu.

– Mas como vieste aqui parar? Ninguém te foi chamar, está toda a gente a dormir. – Perguntou, curioso.

– A dormir?! – Pasmado – Por isso não vim ninguém. Que aconteceu?

– Não sabemos. Basta que os piquemos e começam logo a bocejar. Fecham-se em casa e deitam-se a dormir. – Disse o inseto.

– O povo está a dormir? Mas isso não pode acontecer. É mau sinal o povo andar a dormir. O povo anda a dormir há muito tempo? – Mal podendo acreditar no que escutava.

– Há uns dois dias, desde que chegámos.

– Alguma coisa tem de ser feita! O povo não pode continuar adormecido. Tem de despertar urgentemente!

– Pois não pode, mas como se há-de fazer? Tens alguma ideia milagrosa?

– A música pode dar uma ajuda. As canções podem ajudar o povo a tomar consciência.

– Quer dizer que vais cantar para o povo?

– Sim, mas depois as moscas não podem tornar a atacar o povo, para o povo não voltar ao mesmo estado de inércia.

– Não sei como vamos resistir à tentação de continuar a picar as pessoas. Algumas são tão gordinhas! Este povo deve viver muito bem! – E fez um ar guloso.

– Estás enganado, – e concluiu – mas se insistirem em fazê-lo, terei de atrair uma tempestade com o toque da minha guitarra e, nesse caso, nenhum a mosca vai resistir à chuva.

– Convenceste-me. Vou reunir o meu grupo e partimos ainda hoje. Adeus.

Terminada a curta conversa, o trovador Marcelo virou costas e foi pela rua afora, tocar de porta em porta até lhe virem acenar da janela, mostrando-se agradecido por ele, em boa hora, ter aparecido para abrir os olhos ao povo.

FIM

Moral da história:

“Para não te acontecer como se fosses picado pelo inseto, não te deixes contagiar pela conversa mole de alguns políticos.”

 

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