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Barroco e propaganda – Francisco Duarte

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Esta semana vamos falar de arte. Sobretudo de um exemplo histórico da arte aplicada à propaganda, tema pelo qual tenho algum interesse e inevitavelmente me envolve nos meus trabalhos como voluntário no Museu de Aveiro.

Contrariamente ao que se possa passar, a arte não existe no vácuo. Como qualquer outra faceta da nossa sociedade, existem sempre motivos subjacentes à criação artística e, muitas vezes, assentam num substrato político-social inescapável. Vejam o caso da chamada arte Barroca. Uma das correntes artísticas mais conhecidas e prolíficas do Iluminismo português, com magníficas coleções expostas em diversos museus nacionais, teve na sua génese uma série de iniciativas políticas com profundas repercussões na História. Para entendermos esta questão teremos, claro, de recuar no tempo, e perceber o contexto.

A Europa do Século XVI era um continente fortemente dividido e envolvido numa espiral descendente de caos. Apesar de decisões violentas para conflitos políticos e sociais não serem novidade na época e na região (convenhamos que a Europa tem milénios de História militar documentada), a disputa entre o catolicismo romano e as recentes vertentes protestantes tornara-se rapidamente num real conflito pelo domínio das populações europeias.

Ao longo de todo o Século XVI e primeira metade do Século XVII guerras selvagens varreram a Europa. Por fim tornou-se evidente que a força por si só não seria suficiente para manter o domínio do catolicismo romano e novas medidas teriam de ser tomadas para manter as populações sob a sua influência. Terá sido no Concílio de Trento que foram discutidas as bases para as correntes artísticas religiosas, que traduziriam o modo como a propaganda da Igreja iria funcionar.

Os templos protestantes eram, e em grande medida ainda são, caracterizados pela sua simplicidade, pela ausência de enfeites e pelas cruzes simples, sem representações de Cristo. Assim sendo, a resposta escolhida pelo catolicismo romano foi de criar algo diametralmente oposto, dispendiosas casas de luz na Terra, que iriam impressionar a população e, esperava-se, demonstrar o quão impressionante era o reino de Deus e a sua promessa de vida eterna.

Veja-se que as pessoas desta época eram, na sua maioria, agricultores e artesãos, sem educação e cuja vida era labor de sol a sol, dor e doença. Para esta gente entrar numa igreja ricamente adornada era incrivelmente impressionante, algo que realmente marcava. E para conseguir este efeito, a arte barroca caracterizou-se pelo exagero, pelas formas complexas e floreadas. As esculturas eram dramáticas, expressivas, com diversos detalhes. A pintura enchia-se de personagens desenhados realisticamente e cores fortes. A música de coros e órgãos, e a escrita de entrecruzamentos de adjetivos e metáforas que a tornavam difícil de acompanhar. Também importante é ter em conta uma das grandes características da escultura barroca: a talha dourada.

A talha era formada por um substrato de madeira, onde a escultura era, de facto, feita. Por cima colocavam-se camadas de argila e cola feita à base de gordura de coelho, que serviam para preencher lacunas e permitir a colocação de uma finíssima folha de ouro, que dava a estas esculturas o seu magnífico brilho.

Assim sendo, vejamos o impacto que tinha estruturação nas mentes das pessoas que se pretendia cativar. Imagine-se como um humilde lavrador que chega à igreja, e, assim que entra, dá de caras com as sumptuosas paredes, repletas de esculturas, flores, caras, trepadeiras, pássaros, e santos, tudo em dourado, resplandecendo com o brilho das velas, projetando sombras nas curvaturas das estatuetas. Por entre as esculturas havia pinturas, histórias de santos, de padroeiros e outros personagens, contadas em telas que se espalhavam em redor. Das paredes saíam enormes cortinados vermelhos, e no chão também haveria tapetes vermelhos. Era um crescendo de complexidade que tinha como objetivo erguer os seus olhos para o alto. O único ponto de fuga era o altar, onde estava a cruz, enfeitada com um Cristo em sofrimento, normalmente colocada junto de uma clarabóia que iluminava este ponto como se fosse a própria porta para o Paraíso.

Isto impressionava as pessoas, espantava-as, e fazia-as cair de joelhos. Era imenso dinheiro gasto em propaganda cara para impressionar e cativar. Só a título de curiosidade será interessante acrescentar que o Barroco português era ainda caracterizado pelos azulejos azuis que preenchiam os espaços sob a talha, junto ao chão, e que são a origem da expressão “ouro sobre azul”.

O importante a reter desta realidade é a importância que as instituições de poder dão à propaganda, e como técnicas de espanto e demonstração de riqueza são usadas para mover as massas. Isto ainda hoje é real. A propaganda está presente na arte e no dia-a-dia, e as tentativas de grupos de poder de nos cativar são constantes.

Pense nisso.



Crónica de Francisco Duarte
O Antropólogo Curioso 

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