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Carta de amor ao Half-Life – Francisco Duarte

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A cultura do modding é uma coisa extraordinária. Como muitas coisas na Internet, acho extraordinário como é que tanta gente é capaz de desenvolver produtos de grande qualidade que depois entrega à comunidade, sem quaisquer custos. Evidentemente que muitos dos que participam nestes projetos têm em vista conseguir emprego na área através de bom trabalho desenvolvido. Mas tal não se aplica a todos os que participam neste tipo de iniciativas e, no fim, existe uma grande quantidade de dedicação e amor investidos sem que não haja nenhum retorno material imediato.

Mas para aqueles que não conhecem esta cultura online, o que é o modding?

O modding consiste em alterar jogos que já existem, de modo a criar novo conteúdo, às vezes modificando radicalmente o produto original até níveis em que este se torna irreconhecível. Deste modo foram criados mods bastante populares e alguns trouxeram novas cartas para a indústria dos videojogos, tornando-se, inclusive, a origem de novas empresas. E porque venho eu falar nisto? Porque no passado dia 14 foi finalmente colocado disponível para download o mod “Black Mesa”.

Este é uma adição à já longa lista de adaptações do venerável “Half-Life 2”, criado pela empresa Valve e um dos videojogos mais bem cotados da História da indústria, e que saiu em 2004. Este foi um produto incrivelmente bem-sucedido, que revolucionou o panorama dos First-Person-Shooters (jogos de tiros na primeira pessoa) da época. A história da campanha era toda vivenciada pelos olhos do protagonista, Gordon Freeman, o que ampliava imensamente a imersão, os inimigos inteligentes e desafiantes, o motor de física revolucionário trazia novas dinâmicas ao combate, e permitia um impressionante grau de interação com o ambiente. Graficamente era impressionante e apesar de hoje o motor gráfico já mostrar bem a idade, consegue surpreender pela sua beleza em certas ocasiões.

Contudo, muitas destas características não eram totalmente novas, e tinham sido exportadas do primeiro videojogo da Valve, o icónico “Half-Life”. Para muitas pessoas da minha geração este é O videojogo, uma experiência interativa tão à frente do seu tempo que mudou completamente o modo como se olhava para esta forma de entretenimento, sobretudo os FPS. Não escondo a minha paixão pelo universo negro e complexo desta série de videojogos, nem o quão importante foram para o meu desenvolvimento como escritor e como curioso pelos videojogos. E como eu digo isto, muitos outros dirão o mesmo.

É aqui que entra “Black Mesa”.

Tendo iniciado o seu desenvolvimento logo em 2004 como “Half-Life: Source”, o projeto propunha-se a fazer uma conversão completa do “Half-Life” original para o motor gráfico da sua sequela. Eventualmente sofreu diversas mudanças no seu rumo à medida que a equipa por detrás do mesmo se apercebia de que não poderia fazer apenas uma simples conversão. Este conjunto de 40 pessoas fez uso da impressionante série de ferramentas de modding que o “Half-Life 2” trazia consigo (as agora populares ferramentas Source SDK) e utilizou o seu tempo livre durante 8 anos para trazer ao mundo a sua visão. Não há outro modo de descrever este projeto senão como uma carta de amor para aquilo que o jogo representou para uma geração de jogadores. Como referido, a conversão não é total, certos mapas foram grandemente modificados ou simplesmente ignorados, e pequenas coisas foram adicionadas, mas, no geral, tudo isso foi feito numa tentativa de corrigir os erros do jogo original e de o tornar acessível para uma nova geração de jogadores, para que estes o possam ver em primeira mão sem serem desmotivados pelos gráficos já muito datados e, talvez ainda mais importante, para criar uma magnífica experiência nostálgica para os fãs.

E, de facto, “Black Mesa” é um jogo magnífico. Os mapas são fenomenalmente pormenorizados, agarrando no que havia de bom no jogo original e criando detalhes sobre detalhes, e, talvez mais importante, dando um maior sentido aos mesmos. Onde certas áreas apenas existiam para levar o jogador de um lado para o outro, aqui existem tentativas de que cada passagem, cada porta, faça sentido no contexto da grande instalação científica invadida por seres extra-dimensionais onde se passa o jogo. Os inimigos clássicos regressam, evidentemente, com uma aparência melhorada (que em certos casos não achei realmente satisfatória), e as armas foram ligeiramente modificadas no seu funcionamento, de modo a refletir uma aproximação mais contemporânea à jogabilidade. Mais ainda, o mod é bem mais longo em tamanho do que se espera neste tipo de projetos. Terei demorado umas oito horas a chegar ao fim, o que é quase o dobro das campanhas de muitos videojogos oficiais de hoje.

Infelizmente nem tudo é perfeito. Existem alguns bugs, alguns deles relativamente cómicos, ou frustrantes, como quando atirei granadas para tentar derrotar os invasores, e estas simplesmente atravessavam o chão e iam explodir fora do mapa. Também estão em falta os capítulos finais do jogo original, certamente cortados por se achar que o desenvolvimento já estaria a alongar-se demais. No fim, contudo, isto são apenas defeito menores naquele que foi um projeto de grande dedicação por parte destas pessoas. Importante também referir o apoio que a própria Valve deu ao projeto, o que demonstra uma compreensão pela natureza do mesmo.

Se tiver instalado o programa “Steam” no seu computador, assim como o Source SDK 2007, eu aconselho a que faça download do “Black Mesa” e experimente, seja fã do original ou não. É uma experiência extraordinária e está tudo disponível de graça. Se não tiver, faça download dos programas de que falei e jogue na mesma. Não se arrependerá.


Crónica de Francisco Duarte
O Antropólogo Curioso 

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