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Crónica do faz-de-conta

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Via-os sair do avião. Punham os pés em terra e eu de cabeça no ar.

Sonhava conhecer, de lés-a-lés, todos os lugares para onde a minha fértil imaginação dali me levava, mas a partir de onde as saudades de casa sempre me faziam voltar rapidamente.

Um lugar diferente por cada turista que acabava de chegar naquele voo, apesar de saber que naquele grupo eram todos provenientes do mesmo sítio.

Se fosse rico, havia de ser elegante, como eles, e as mulheres da minha família, a começar pela minha própria, haviam de ser como as que os acompanhavam.

A minha mãe havia de saber ler e escrever, mas na língua materna e não na deles, a minha irmã havia de ter um colar de pérolas genuínas a fazer parelha com uns brincos de ouro e a minha namorada tinha de ser loura de olhos azuis.

Eu nunca andei de avião, mas conheço pessoas que já o fizeram. De algumas delas, ouvi dizer que se perderam nos caminhos da vida e, creio que por receio, resolvi nunca experimentar. Foram amigos meus de infância, que me conheceram bem e sei que fariam tudo por mim e outros, mais recentes, sobre quem não posso emitir uma opinião destas por ainda não os conhecer convenientemente.

À força de imaginar, apraz-me verificar que não me tenho limitado a passar neste pequeno país situado na extremidade ocidental da Europa, delimitado por terra pela Espanha e por mar pelo oceano Atlântico, a totalidade das minhas férias, dos curtos fins-de-semana e demais tempos livres, que nem sempre foram bem aproveitados, confesso.

Assim, em Paris, capital de França, faço de conta que subi, um a um, todos os degraus, a perder de conta, que conduzem ao topo da torre Eiffel e, já agora, posso dizer que ela era tão alta que ainda ia a meio da subida e já de lá podia avistar Lisboa com todas as casas dos seus pitorescos bairros típicos a sofrerem obras de restauro.

Em Londres, faço de conta que assisti ao render da guarda real à porta do Palácio de Buckingham, onde ainda vivia a rainha após ter sido rendida pelo filho mais velho na sucessão ao trono.

Numa favela do Rio de Janeiro, finjo ter presenciado a captura, feita pela Polícia Militar, de dois temidos foragidos que ousaram assaltar um Banco à luz do dia, no coração de uma das avenidas mais movimentadas da zona rica. Fizeram-no à mão desarmada e hábil do mais novo que, aproveitando a distração provocada pelo parceiro no funcionário da Caixa, meteu a sua por detrás do balcão, agarrando em todo o dinheiro que lá estava.

No Pólo Norte imagino ter visto cair um nevão a sério e em Nova Iorque faço de conta ter ouvido a notícia de que Portugal se sagrara, pela primeira vez no seu historial, campeão mundial de futebol, facto que só bastante mais tarde viria a descobrir tratar-se de uma mentira.

Contudo, o meu local de eleição, o que mais me agradava visitar era o que menos se parecia com tudo isto, ou seja, não era uma capital como Paris. Era uma cidade mais pequena do que Londres, menos violenta do que o Rio de Janeiro, mais perto do que Nova Iorque e mais quente do que o Pólo Norte.

O nome dela não sei, relembro que é um daqueles lugares imaginários e só por essa razão é que lá existia um sem número de lugares aprazíveis, tais como faustosos teatros, imponentes edifícios bem conservados, luxuosos palacetes usados como museus, amplas praças e, sobretudo, admiráveis jardins que não me cansava de visitar todos os dias, até àquele em que vi chegar a minha melhor amiga de juventude, Ana.

Contou-me que estava de passagem, com pressa de chegar, não me disse onde, e falámos a correr, embora, a seu respeito, eu tivesse a certeza de que era o género de mulher que qualquer homem ambicionava ter ao lado para toda a vida e não durante um curtíssimo período de tempo.

Não recordo onde ocorreu o nosso encontro que eu considero inevitável. Não sei se foi num dos lugares atrás mencionados, que ela não frequentava ou numa discoteca que não existia. Estou convicto de que não foi num café nem num bar, pois à hora a que eu estava a sair para a rua, muito cedo, e ela estava a voltar a casa, bastante tarde, acho que ainda os primeiros não tinham aberto e os segundos já tinham fechado.

Quando éramos jovens eu repetia-lhe, vezes sem conta, que ela era linda e lembro-me de ela, primeiro com um sorriso, ter retribuído o elogio uma única vez.

Nunca o esquecerei mesmo sabendo que, para si, a lembrança dessa noite se lhe evaporou da memória como ao fumo dos cigarros que ambos fumámos ou que lhe passou, logo na manhã do dia seguinte com o efeito da cerveja que bebemos juntos.

Naquela época, nos dias que se seguiram, na companhia um do outro, percorremos lugares que conhecia tão bem! Porém, após ter trocado a minha companhia pela de amigos que nunca foram comuns, deixámos de nos ver.

Mais tarde, decidimos, sem discutir, que o melhor seria deixarmos de nos ver, ir cada um para seu o lado, viver independentemente a sua vida e não permitir que um pequeno incidente estragasse a lembrança de um tempo bem passado.

Talvez um dia eu voltasse àqueles lugares de outrora de que tanto gosto e ela também, mas talvez ela tornasse a encontrar-se com o mesmo grupo de amigos de que tanto ela gostava e eu não. Ao reencontrá-la no presente relembro o passado.

Para o ano talvez vá visitar Espanha, as suas principais cidades que não conheço e se, porventura nos cruzarmos, juro que não lhe falo!

Não vou fingir que gostei de ser preterido naquela altura e, dessa forma, ela fica a conhecer-me um pouco melhor.

 

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