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De volta à normalidade

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Embora o título da série de crónicas (Teoria do Caos) deste vosso humilde escriba tenha dado desde sempre fortes indicadores relativamente ao tipo de conteúdo das mesmas, acho que em nenhuma circunstância o mesmo se adaptou tão bem a uma delas.

A verdade é que este título podia perfeitamente ser a legenda de uma fotografia artística de qualquer dos actuais actores do Médio Oriente. O contexto social e político que se vive na grande maioria dos países desta zona do globo voltou a aquecer (e de que maneira), depois de um período em que parecia ter chegado alguma acalmia à região, pelo menos atendendo ao fluxo de notícias que nos era trazido pelos principais meios de comunicação. É pois uma espécie de ‘regresso às aulas’ sem no entanto se fazer acompanhar de novas lições para serem aprendidas, sem a ilusão de um verdadeiro futuro.

No Iraque, o estádio de sítio é cada vez mais uma realidade diária, e a dificuldade em suster as forças mais radicais, já fez com que a ONU aconselhasse a formação de um novo governo. A caótica situação favorece a emergência de novos actores, e o ISIS, um grupo islamista radical, fundou ‘de facto’ um califado em território iraquiano e sírio. Além disso, o cenário de um estado sunita independente começa a parecer cada vez mais realista. Também a Síria continua submergida numa guerra aberta há mais de 3 anos e o fim não parece estar à vista.

O caso do conflito Israelo – Palestiniano continua a ser chover no molhado. Quando parecia ter havido uma aproximação entre Hamas e Fatah (os dois principais partidos Palestinianos, sendo que o Hamas controla a faixa de Gaza), grupos radicais israelitas e palestinianos fizeram estalar o verniz, e novas ofensivas se sucederam. Como seria expectável, a quase totalidade das baixas foram do lado Palestino, em Gaza, com 192 mortos até ao momento.

No jogo das alianças muito pouco se vê. A desastrosa política externa de Barack Obama, pode-se ver reflectida no chorrilho de lugares comum do discurso de John Terry acerca do lançamento de mísseis por parte do Hamas, o que acaba por reduzir o poder de influência dos EUA. A crua verdade, é que o novo afastamento das duas principais forças políticas palestinianas, é muito benéfico a Israel. A descontinuidade dos territórios da Palestina (Israel situa-se entre Gaza e a Cisjordânia) é uma vantagem estratégica de Israel e deve ser mantida, até mesmo no que respeita à concertação política.

Do outro lado da barricada, Erdogan, o Presidente da Turquia, reprovou veemente as declarações de uma deputada ultra nacionalista israelita que afirmou que as mães dos palestinianos merecem morrer e comparou a actuação de Israel às atrocidades cometidas pelo regime de Hitler. O ódio de estimação de Erdogan por Israel faz com que facilmente esqueça os seus próprios telhados de vidro. De entre os tradicionais mediadores árabes, nada a destacar, e o seu papel começa a ser cada vez mais residual. Exemplo disso mesmo é o caso do Egipto, olhado como um fantoche por ambas as partes.

Curioso também o facto da quase inexistente mediação europeia nos dias que correm. Ainda que a União Europeia nunca tenha sido um verdadeiro mediador deste conflito, a Europa não pode fugir às responsabilidades históricas que tem naquilo que se passa no conflito Israelo-Palestiniano e até no restante Médio Oriente. Recordo que foram as grandes potências europeias França e Reino Unido que estabeleceram após a I Guerra Mundial as linhas mestras da partilha dos territórios do Império Otomano, dando assim origem às actuais fronteiras da região. O Acordo Sykes-Picot, como ficou consagrado, distribuiu os territórios de maneira a que os favores de guerra fossem devidamente compensados, mas é também a grande causa de muito do que se assiste hoje em dia.

No entanto, a União Europeia tem outros problemas para resolver e o Médio Oriente não é uma das prioridades actuais. Ainda assim, o facto de o Médio Oriente estar de volta à normalidade parece arrastar consigo a crónica da anunciada morte de Sykes-Picot, o que fará certamente com que a Europa reveja a a sua política externa relativamente a esta região, e abandone o laxismo e a inoperância que a tem caracterizado em todo este processo.

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