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Uma espécie de carta de amor ao Douro

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O primeiro contacto com o Douro não está na minha memória, talvez num odor para mim doce como sempre foi aquela paisagem onde cresci em formato de criança, também quando o Douro era uma criança. Apesar de não saber a idade do rio, não era tão grande como é hoje e para os meus olhos de criança, ele era uma criança. O rio que me viu crescer, era forte e de águas claras. Não quer dizer que fosse menos poluído, mas era mais cristalino e selvagem! Pelo menos é a imagem que guardo dele nas minhas memórias. Os meus avós eram feitores numa quinta, bem á beira do rio e eu ficava lá com eles, cedo me tornei um amigo. Naquela altura, era um rio diferente do que é hoje, na verdade ambos crescemos e nos tornamos adultos. Apesar de hoje estar perto e ao mesmo tempo longe, as memórias que tenho do Douro, quer visuais, tácteis ou olfactivas são parte da minha felicidade. Lembro-me das manhãs de nevoeiro em tons de fantasia, dos dias de sol cantados pelas aves e dos momentos com mais impacto, como as cheias,sempre passadas ao som de memórias das grandes cheias em que o rio tinha chegado ao telhado das casas, que tanto assustavam a minha avó. Eu ficava fascinado e lá no fundo, queria que o rio chegasse mais perto. Se a minha avó soubesse… as noites não tinham televisão, apenas pessoas e estrelas, quando era de Verão ou uma fogueira de Inverno e muitas memórias, onde todos os medos de cada um, eram lançados na noite em forma de história e nos assustava o coração, ao ponto de nos sentirmos privilegiados por termos perto o amor de cada um.Lembro-me das vindimas, os odores eram mais fortes, que nos deixava embriagados os sentidos. Ainda hoje o cheiro do vinho me trás uma espécie de prazer e saudade, apesar de não gostar desse néctar dos deuses… Recordo os dias que passei com o meu avô no alambique, sempre com um copo de leite e pão com manteiga que a minha, já falecida tia me ia levar ao meio da manhã. Dos lugares onde as minhas tias costumavam lavar a roupa com muita relva e fragas e lá no meio do rio, se via uma pequena ilha onde eu imaginava haver um tesouro. Hoje o rio tomou esse lugar para si, como algo demasiado belo para se ver de novo. O Douro também deixa magoas… Depois havia a outra margem, onde passava o comboio que vinha lá de longe, onde existia o mar, mas nunca me falou dele… recordo sobre tudo as pessoas que apesar do trabalho duro ainda brincavam comigo.. Lembro-me da minha tia que ao dormir tantas vezes me ensinava a rezar e nunca aprendi… nos Domingos íamos à Barca D´Alva a beber um café e mais uma vez o habito de estarmos, o António, um trabalhador que veio de longe, me levava as costas e não era perto só por não ficar com as mulheres. Também já lá estás e nunca te pude agradecer tudo de bom que tu tinhas nesse coração… naquele tempo a gente acho que era feito de outro amor! Lembro-me nessas idas à Barca D´Alva, num café na estação do comboio, eu querer beber também café que era tão forte, que apesar de todos me darem o seu açúcar não ficava doce, eles sorriam… acabavam sempre o dia com copo menos copo e se vinha pela estrada de terra batida a cantar. Nesse tempo não sabia nada da vida e vivia cada dia sem saber que nada é interno e que as horas que passava a olhar o rio, a cheira-lo, a escutar os seus movimentos por entre as rochas, não seriam para sempre. O rio cresceu e eu também, seguimos caminhos diferentes. As vezes, pergunto-me se o rio terá saudade? Quando chove e a terra fica molhada, sinto o odor do Douro, acho que é ele que me vem visitar…

vivi muitos anos ao lado dele, dormia ouvindo os seus passos quase silenciosos e acordava com a frescura das plantas que ele amava e lembro-me muito de passar horas olhar para ele. Nunca parava, tinha sempre aquela pressa de chegar ao mar… Só mais tarde compreendi essa pressa, quando eu próprio vi o mar!

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