Crónicas de Natal

Não é Natal sem…

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Não é Natal sem…

É dia de Natal, é neste dia que todos se unem à volta da mesma mesa, com comida com fartura, bebida a acompanhar e muita hipocrisia misturada nas faces de familiares que se odeiam, mas que no entanto, se esforçam para dar gargalhadas estridentes, abraços com palmadinhas e sorrisos amarelos, sempre na esperança de receber mais do que umas meias e uns chocolates, como no Natal passado. Porém, esta crónica são se incidirá sobre a hipocrisia natalícia, incidirá sim sobre o que é essencial na noite de 24 para 25, no dia 25, ou mesmo em todos os dias antes do acontecimento do ano, ou como se costuma dizer, o dia de ver o “Porquinho Babe” e toda as suas sequelas.

Não é Natal sem filmes clássicos desta quadra natalícia. Comecemos pelo óbvio. Ninguém consegue passar uma consoada sem ter visto nos dias anteriores, ou mesmo no próprio dia, 55 vezes o Sozinho em Casa, dizendo ao mesmo tempo as frases do filme enquanto cai uma lágrima quando Kevin e a mãe se abraçam. Comovente, mas nada disso aconteceria se ela não se tivesse esquecido do filho. Duas vezes do mesmo e mais outras três de outro que é uma imitação rasca. Também os filmes com bonecos de neve que falam não podem falhar. A ideia de ter um boneco com uma cenoura e dois botões nos olhos a mexer e a falar, é tudo menos propícia para o Natal, especialmente quando as histórias são tão previsíveis que fazem parecer o filme Velocidade Furiosa, merecedor de Óscar. O Amor Acontece é outro dos filmes que nunca falha, a história na qual entra Lúcia Moniz e os portugueses são vistos como baixos, gordos, labregos e empregados de mesa, já se tornou um clássico no Natal de forma a rebaixar, ainda mais, a auto-estima portuguesa. Não podemos acabar este capítulo dos filmes que juntam a família toda à volta da televisão, enquanto a avó, depois de dois Mon Cherrie dorme, o avô conta piadas porcas e a mãe e as tias estão à cusquice, sem falarmos da saga Harry Potter e de todos os seus 8 filmes que são vistos em maratona por miúdos e graúdos que ainda pensam vir a receber uma carta de Hogwarts. Ainda o Grinch, que é acerca de uma “coisa” com pelo a mais que odeia o Natal, óptimo para fomentar o espírito natalício.

Não é Natal sem o cheiro a fritos. Grelhados? Cozidos? Assados? O que é isso? Natal sem o cheiro a tasca com bitoques a 3.5€ e banca de farturas, não é o mesmo. O cheiro a azevias, filhoses, argolas, rabanadas, e todas os outros fritos que mudam de nome consoante a nossa posição geográfica, não pode desaparecer. O certo é que toda a nossa casa fica a parecer a fábrica mundial de churros e farturas com sabor a canela e a açúcar. Esta é mesmo aquela altura do ano em que nos sentamos à mesa a falar com o colestrol, de tão grande que ele está. Contudo, nem só do cheiro a fritos se enche a nossa casa, também de frutos secos que ninguém toca mas têm de estar na mesa porque dá bom ar, de chocolates fora de prazo que foram oferecidos há três natais mas que ninguém nota porque o quer é enfardar e de pratos de bacalhau com todos os nomes e feitios, só para poderem dizer “na minha casa é diferente, comemos bacalhau à (inserir nome que a pessoa inventa na altura só para não parecer vulgar)”. Quando esta época festiva acaba, toda a gente se sente como o Fernando Mendes depois de um lanche.

Não é natal sem meias e pijamas. É imperativo que em todos os lares, trabalhos ou simples trocas de prendas, haja sempre alguém a oferecer umas meias de lã, um pijama de flanela ou um robe de algodão. Não falha. Normalmente esse trabalho fica ao cargo das avós, tias, primas que só vemos 2 vezes por ano mas cada vez que as encontramos dizem “estás tão grande”, mesmo que tenhamos parado de crescer há 5 anos. Em último recurso, os amigos que não sabem o que nos oferecer e têm a imaginação de um pintainho anão, também optam pelas peúgas. Agora com a Primark as coisas já não são bem assim, a população mundial concentra-se num único estabelecimento comercial para comprar pijamas com animais, pantufas com pelo e meias com pompons. Esse trabalho de oferecer roupa de noite não tem só como público alvo crianças ou pessoas das quais só sabemos o nome, mas que convém sempre dar qualquer coisa para parecer bem. Não. Nos dias que correm toda a gente a compra, tornando assim necessário existir um “closet” de dois andares para pijamas e derivados. As avós estão a perder terreno, uma vergonha.

Não é natal sem circo. Pessoalmente odeio circo, no entanto, e para quem não é fã do canal Parlamento, podem sempre sintonizar a televisão na SIC, RTP ou TVI, qualquer uma delas faz questão de nos bombardear com o circo de Natal. Seja ele o Chen, o Cardinali, ou outro qualquer em que o dono tenha cara de mafioso de leste, o certo é que o circo faz as “delicias” dos mais novos, pelo menos é assim que pensa quem leva as crianças ao circo. Ver tigres maltratados, contorcionistas que se alimentam de bolachas de água e sal, palhaços que parecem tirados do Intendente e malabaristas que foram trazidos dos semáforos da Praça de Espanha, é tudo menos educativo. Muito menos natalício. Um negócio tão obscuro como é o circo só serve mesmo para enganar quem diz ser engraçado e didático.

E é assim que se passa o Natal em Portugal. Mesmo com a crise enorme que insiste em perdurar, o certo é que cá seguimos nós, cantando e rindo ao som da actuação da Mónica Sintra no Natal dos Hospitais, ou então da voz estridente da Cristina Ferreira nas galas de Natal da TVI. O português é assim mesmo, tem os mesmos hábitos há anos, queixa-se sempre, mas no entanto, volta a fazer o mesmo. Nós somos assim, um povo peculiar. A todos um Feliz Natal, com muitos Sonhos, mas o de abóbora, porque os outros, não tarda nada, também pagarão imposto.

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