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O 28 de Lisboa

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Corre por mim um vento afável, meigo, como algo obrigatório e sem fuga de passagem. Não importa quem esteja. Corre por mim, acompanhado de inúmeras vezes, sobre todos os pés caminhados, e parados. De quem não tem pressa, e a vida faz-se devagar. Aqui e ali, em Lisboa.

Morro a cada segundo um pouco mais. Morro naquilo que não vejo, todos os dias. E morro naquilo que não provo lentamente e com paixão redobrada. Como é o caso.

Há alturas em que aniquilo a forma silenciosa de mim. Como quem sai de um coma cavado, acerbo. Antes de viajar pelo meu querido 28, aproveito para almoçar no recomeçado “Mercado de Campo de Ourique”. Um bairro baseado na tradição. Um bairro com rosto de Lisboa, desde mil novecentos e trinta e quatro. A perfeição modernizada, portuguesa, com os ingredientes essenciais. Os mais de vinte estabelecimentos modestos exprimem uma oferta variada de sabores intensos; marisco, doces conventuais, vinhos, gelados, sushi, queijos, petiscos tradicionais ou hambúrgueres gourmet.

Deslumbro o 28. O eléctrico 28. Com os olhos do coração. E dou princípio ao tempo. Encarquilho o modo de assimilação e revoluciono a existência. Ou Lisboa. Que é a mesma coisa. Em trajes menores, Lisboa. Desnudada, Lisboa. Resguardada, corpo publicado, observo as cores de todas as gentes. Imagino o mundo, penetrante. Com pessoas dentro, abrandam, ambicionam o verde libertador. Os carros aceleram, desfilam a cidade com passos deslizantes. Os chinelos, as botas, os casacos, os chapéus, as calças de marca, os ciganos, os pobres e os muito ricos. A parte integrada, visível e perceptível de uma cidade influente. As ruelas não cabem em mim de estreitas. E a cultura toda, compactada, absolutamente envolvida. Histórias com histórias dentro.

Deslumbro o 28. As “Sete Colinas” inebriam o ar necessário. Tonturas mil. Como um peito de ar humano, colocado no devido lugar. No centro de todas as emoções. Sorrio. Velha abençoada que assemelho ser.

Deslumbro o 28. Martim Moniz. Ponto de partida. De encontro ao “Bairro da Graça”, no enlaço do “Mosteiro de São Vicente de Fora”. Majestoso. Tamanhos que conferem a grandiosidade do amor. E o amor deve ser grande. O amor deve ser sempre grande. O “Campo de Santa Clara” merece igual determinação visual, onde a “Feira da Ladra” continua a apaixonar milhões. E outros tantos milhões, infinitos. A felicidade estampada nas mãos de quem vende e compra.

Deslumbro o 28. Prossigo por Alfama. Ofereço corda ao Fado. Um perfume inebriante que inunda a roupa de um cheiro graúdo. Amália. Carlos do Carmo. Ana Moura. Gisela João. Do mais profundo ao mais recente. Danço o canto da saudade, em pensamentos vãos, ao romper a “Rua das Escolas Gerais”, o “Largo das Portas do Sol”. O tão apreciado Miradouro que veste o rio. O Tejo, claramente. Que sabe a morango. Que não impede o excesso de peso. Que provoca vontades. E deveres, só de ver. Lacrimejo as paixões passadas. E esboço um sorriso ao mesmo tempo. Uma e outra vez. As flores, as vénias, as promessas, os adolescentes, as drogas e a leveza da vida. De experiências existidas e testemunhadas. Umas portuguesas. Outras nem por isso.

Deslumbro o 28. Acima, do alto da viagem, o “Castelo de São Jorge”, que desafia o tempo em direção à “Baixa Chiado”, como quem acompanha o sol primaveril. Em pleno Fevereiro de dois mil e dezasseis. Uma jovem portuguesa lê o fado. Com a alma. Com as mãos. Com os olhares alheios. A “Catedral de Lisboa” a servir de epígrafe, a frontaria romântica da “Igreja de Santo António”. A galinha dos ovos de ouro dos Lisboetas.

Deslumbro o 28. Harmonizo a saia. Cabelo esvoaçante. Fios de cabelo. A brisa do entra e sai. Ininterrupta. Declino a movimentada e sempre entusiasmada “Rua da Conceição”. Como a minha saia é elegante. De cores garridas ao enfrentar, rodada e resplandecente, a “Colina do Chiado”. Convencida e modesta que sou, atrevo-me a sair do meu querido 28. Um pé. Um passo. Dois passos. A seguir ao outro. A pressa não existe. A pressa nunca existe quando o destino fica a caminho de um café na “Brasileira”. Os ossos a descoberto. A vida e obra de Fernando Pessoa. Poemas descarnados.

  • “O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente/E os que lêem o que escreve/Na dor lida sentem bem/Não as duas que ele teve/Mas só a que eles não têm/E assim nas calhas de roda/Gira, a entreter a razão/Esse comboio de corda/Que se chama coração.”

Sossegada. Quieta, sobre a névoa que circula por entre os dedos falantes, proporciono real atenção à obra dos edifícios, aos azulejos que cobrem as fachadas e os frisos. Escolto sem armadilhas. Com os meus sapatos confortáveis, absorvidos pela calçada típica, termino na “Estrela”, admiro, os sentimentos todos num só corpo, a morada da “Assembleia da República” e o antigo “Convento de São Bento”, como fazem os grandes humildes, do alto da escadaria.

Deslumbro o 28. E não apenas o 28. Eu sou Lisboa. Outras peles. Outros rostos. Outros abraços. Outros amores. Outra vida, sempre que por aqui viajo.

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