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Regresso ao futuro em 2043

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“Pechugas de Pollo”, escolheu ela apontando, de uma longa lista de pratos para o jantar, que, ainda por cima, tão cedo não esqueceria porque serviu para fixar a fasquia da categoria do restaurante abaixo da qual não tornaria a sujeitar-se a ir, quando outro homem a convidasse para sair.

Chamava-se Olga e nasceu no território da atual Ucrânia, numa altura em que da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, vulgo URSS, não chegavam notícias de que algum europeu, com exceção de algum exilado político europeu, desejasse ir para lá viver.

Nos Urais, de onde eram naturais os tetravós maternos, no início do outono descia do cume da montanha mais alta, um vento gélido de que veio a ter saudades pela tarde, durante o tempo que durou a sua mais ou menos longa permanência numa ilha anteriormente pertença do conjunto de províncias unificadas que era a Espanha.

Foi no verão quente de dois mil e quarenta e três. Desde a primavera desse ano que a chegada do primeiro astronauta português à Lua era tema de conversa nos catorze canais públicos de televisão e dezassete privados, com todos os espaços de debate a serem utilizados por convidados que usavam preferencialmente o sistema da videoconferência para poderem participar em vários deles simultaneamente.

No plano sentimental, por causa de um rapaz que era mecatrónico de profissão, o coração de Olga batia descompassadamente, palpitando como uma batata frita fechada num pacote a vácuo. Todavia, descobriu da pior forma possível que ele lhe era infiel, ao apanhá-lo atracado nos braços de um marinheiro russo, que tinha tatuada no peito uma palmeira a lembrar algum lugar paradisíaco onde ambos sentiam que poderiam estar totalmente à vontade sem ele correr o risco de ser apanhado em falso pela namorada.

Desde tenra idade que Olga revelava um extraordinário talento para dançar. Com apenas nove anos, pisara o palco num teatro em Lviv, cidade fundada há largas centenas de anos pelo Duque da Ruténia, interpretando a figura de uma dama rica numa comédia de costumes que era uma autêntica alegoria dos hábitos de vida daquele povo na segunda metade do século dezanove, no advento da industrialização do país. No final, cantava um trecho da Ópera “La Traviata” de Puccini, adaptado à cena do bailado “Romeu e Julieta” em que o casal troca pela primeira vez juras de amor eterno às escondidas dos pais de ambos.

Aos vinte e dois anos e sem o menor aviso aos pais, saiu da casa paterna para ir viver com o namorado, um rapaz natural da Bavieraland, que era um dos cinco novos estados independentes formados após a desagregação alemã que se seguiu à saída da grande potência económica da chamada comunidade dos países da União Europeia.

Naquela época, o desejo de Olga se tornar cantora não era inferior à obsessão que teria uma atriz desejosa de conhecer um dramaturgo que escrevesse peças com personagens criadas exclusivamente a pensar em si. Inscreveu-se num curso de representação e em pouco menos de um mês, a avaliar pelo teor das cartas que escrevia aos familiares a narrar que tinha sido contratada por uma grande companhia de teatro, já se lhe notava um tão grande jeito para a representação que se tivéssemos de escolher-lhe um género só podia ser o da comédia.

Em fevereiro de dois mil e sessenta e sete, no rescaldo da cimeira do Gseis, o grupo dos únicos seis países ricos do mundo, o presidente chinês veio em nome dos restantes congratular-se e exortar as nações mais pobres a nunca desistirem de aspirar ser como os que ao longo dos anos apresentaram maior equilíbrio nas contas e os foram alertando dos riscos de manterem elevados os défices orçamentais.

Em abril, agravou-se a tensão política entre Portugal e Espanha por causa da posse da água. De um lado, os portugueses a quererem a restituição do caudal do Tejo aos níveis de há cinquenta anos. Do outro, os espanhóis a exigirem que ao nível de há cinco décadas voltasse a escola de formação do Sporting a produzir talentos como o de Cristiano Ronaldo para, sobretudo aos madrilenos adeptos de futebol, devolver o gosto de ir aos estádios ver uma partida com muitos golos.

Em junho, no aniversário da reunificação coreana, os habitantes do norte já só se lembraram da antiga parada militar quando, na cerimónia do lançamento de balões que se seguiu ao tradicional desfile de crianças, um deles rebentou e alguém disse que parecia soar o tiro de um canhão.

Antes de se apresentar no casting de onde sairia uma atriz para protagonizar uma novela, Olga passou em casa de Jennifer, onde, dos três maridos que ela tinha, apenas Eliseu estava ausente porque lhe tinham rebentado as águas e iniciara trabalhos de parto.

Há muito, que a ciência provirá os homens de órgãos como as trompas, o útero e os ovários que lhes permitiam como às mulheres engravidar, ao mesmo tempo que a lei se adaptara ás necessidades das pessoas e permitia casamentos entre vários parceiros. Na sua cirurgia de redesignação sexual, Eliseu sofreu bastante na recuperação mas achava que valera a pena e haveria de ser recompensado pelo esforço, mesmo que no caso dele o parto não se adivinhasse fácil, para ser mãe de um lindo bebé. É que no lugar da vagina e de forma a favorecer-lhe a performance sexual, o cirurgião que o atendera limitara-se a rasgar um pequeno orifício, que devia ser como a vagina de uma gata que estava preparada para dar à luz mas criaturas de muito menor tamanho.

O pai de Jennifer era um comerciante genovês, que um dia voltou de uma viagem de trabalho aos Estados Unidos tão espantado com o que viu, como Cristóvão Colombo há quinhentos anos deve ter regressado a casa, surpreendido com as maravilhas do novo mundo.

Havia lá à venda uma máquina de viajar no tempo, que, à velocidade da luz, permitia aos seus utilizadores irem do passado ao futuro em menos tempo do que demoravam a decidir para que lado queriam ir, ou seja, se queriam avançar ou recuar no calendário. Comprou uma e o resultado obtido, causado pelo enorme impacto que tal geringonça teve entre os habitantes incrédulos daquela modesta cidade, não podia ser mais satisfatório, ao ponto de, após uma breve deslocação ao futuro até dali a uma dúzia de anos, alguém lhe ter afiançado que ele haveria de ficar famoso e principalmente podre de rico.

Numa dessas deslocações, que na companhia de Jennifer se tornaram frequentes à Inglaterra do século vinte após terem descoberto e tomado gosto à fascinante música que dominou a década de sessenta, Olga acabou por pedir à amiga que visitassem um destino diferente e acabaram ao acaso por chegar à ilha de Palma de Maiorca, que, pela maior proximidade territorial com outro continente que não o europeu, acabara ilegitimamente por ser anexada ao território da FUEAN, a Frente Unida dos Estados Africanos do Norte.

Inverno de dois mil e quarenta e três. Em face do clima húmido na estação que antecede a primavera, nesta estância de férias outrora espanhola, a vegetação nativa crescia a bom ritmo. Na avenida principal junto ao passeio marítimo, palmeiras da altura do primeiro nível de uma bancada num campo de futebol de pequena dimensão, davam aos viajantes a impressão de os seus habitantes sempre poderem encontrar para os seus veículos, lugares para estacionarem à sombra.

No dia me que chegaram, ambas foram conhecer a ilha e à noite dormitaram enquanto o veículo de dois lugares movido a pepitas de chocolate que alugaram, as conduziu através das coordenadas introduzidas no computador de bordo ao cyberhotel onde ficaram comodamente instaladas.

Seis meses volvidos, Olga continuava a viver em Palma, mas de olhos postos nas imagens teledifundidas pelos óculos providos de lentes especiais que tinha postos, assistia incrédula a cenas de horror. Um pouco por todo o mundo, milhões de pessoas, na expetativa do começo de uma nova Videogame War à escala global entreolhavam-se sem gesticular, nem saber o que fazer, se por causa da ameaça do lançamento de vírus até aí desconhecidos, os seus supercomputadores e aparelhos de telecomunicações deixassem repentinamente de funcionar.

Por causa do calor intenso, soprado do deserto como do interior de uma fornalha, Olga fechou todas as janelas e mergulhou no quarto às escuras como se fosse a sua zona de conforto. Com saudades da aragem fria que corria docemente das montanhas na mesma altura do ano, Olga sonhou com a Ucrânia dos seus antepassados, anteriormente país de fronteiras bem definidas de que só tinha tido conhecimento através dos livros, afinal de contas o passaporte de que, sem ser preciso fazê-las entrar em geringonças, muitas pessoas se têm servido para viajar e adquirir conhecimento aos longo das gerações.

 

1 Comment

1 Comment

  1. isabel ribas

    13/10/2016 at 19:42

    Mais uma vez me deliciaste com uma crónica imaginada à luz do humor e da critica social.
    Uma vez mais estás de parabéns

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