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Rita, anda ver o verão – Cap.15

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Num espaço contíguo à pastelaria funcionava um restaurante de cozinha tradicional portuguesa onde se produziam deliciosas receitas. A decoração era bizarra, com tapeçarias expostas como num museu e na sala principal mais comprida do que larga, onde havia numerosas mesas e cadeiras, dir-se-ia que a colocação do mobiliário tinha tido total primazia, em detrimento do espaço que seria necessário aos clientes para circularem à vontade.

Ao fundo de um corredor que se percorria em dois segundos, havia uma casa de banho apertada, somente com as loiças do lavatório e da sanita. Com jeito e sem ter de forçar paredes e teto, nos domingos de casa cheia em que serviam Cozido, o dono, que era amigo do pai, a seu especial pedido lá arranjava maneira de encaixar os cinco a um canto, mas sem necessidade de se sentirem mais apertados do que na pequenina casa onde viviam.

Eram dias bem passados. Melhor só os serões em que ouvia, narrados na primeira pessoa, os inúmeros episódios da participação do avô na Grande Guerra, assim como as peripécias do tempo em que ele e a avó iniciaram o namoro.

Não longe da aldeia onde viviam, uma fonte caiada de branco, em cuja nascente as pessoas iam encher as suas bilhas de barro, era famosa pelas propriedades medicinais das suas águas, que brotavam geladas da montanha. Um fio de água cristalina, escorria por uma fenda estreita aberta nas rochas, para um tanque de pedra mandado construir pela geração anterior à dos seus avós e que era atravessado ao centro por duas barras de ferro em cima das quais assentava qualquer recipiente onde quisessem levar a água para casa.

O cenário desolador da terra arável seca, característico das zonas em que os campos não eram irrigados pela ausência de diques e barragens para armazenar a água, em número suficiente para alimentá-los, não era todavia na região. Por toda a parte, sinal de fertilidade, vegetação rasteira crescia desordenadamente, tanto no perímetro dos fetos e trepadeiras que escalavam o muro da fonte à procura do precioso líquido, como n berma dos caminhos que lhe davam acesso.

Um deles era alcatroado e dava numa estrada secundária, estabelecendo a única ligação daquele lugar remoto com a chamada civilização, que era para onde se tinham descolado quase todos os descendentes dos habitantes mais velhos do lugar.

O avô de Rita gostava do campo, mas, como todos os rapazes da sua idade, sonhara ir viver na cidade. O melhor que conseguiu de forma a estar próximo de um foco difusor de poluição, tão grave como os milhares de veículos automóveis que diariamente cruzavam as ruas das grandes metrópoles, foi arranjar emprego numa fábrica recém-instalada de produção de pesticidas e pesquisa de antídotos, com vista a impedir que uma longa série de pragas ainda desconhecidas pelos agricultores devastassem as culturas do mundo inteiro.

Mas não se pense que ele só pensava no trabalho. Longe disso. Exímio dançarino nos bailes que animavam as populares festas de verão, era conhecido por recrear cenas dos musicais de Hollywood a cujos atores só ficava a dever não ser tão bom a criar as coreografias que depois se limitava a copiar.

À avó de Rita, gelava o sangue nas veias só de pensar na eventualidade de numa delas chamá-la para dançar. Num dos inúmeros bailes em que participaram, quis o acaso que dançassem juntos e mesmo não tendo sido ela nesse dia a melhor parceira com que contracenou,  não foi a primeira a tê-lo trocado no final de uma valsa, por um rapaz que podia pecar por não saber dançar tão bem, mas que tinha a virtude de saber colocar-lhe a mão nas costas, muito acima do lugar onde atualmente a põem todos os dançarinos de quizomba.

Nesses bailaricos, ao costume dos homens de emborcarem garrafas de cerveja e vinho tinto, juntava-se o de, no seguinte, passarem a manhã combalidos, esperando curar a ressaca mergulhando os braços e as pernas na bendita água da fonte, cujo autêntico milagre seria o de fazê-los perder a vontade de se levantarem à noite do sofá para saírem de casa.

Para não vencê-la a tentação de entrar na pastelaria e gastar o dinheiro da mãe numa dúzia de rissóis de camarão, Rita apertou o nariz com os dedos, como se fosse uma mola empregando toda a sua força, nem que para depois conseguir tirá-la tivesse de pedir ajuda, como quando era pequena e sem o auxílio da mãe não conseguia tirar a roupa do estendal. Porém, antes de começar a sufocar, aliviou a pressão da mão e desatou a correr para longe, só parando diante do minimercado onde a mãe ia às compras e a ela tratavam como uma verdadeira princesa.

A distinção vinha da dona do estabelecimento, que, quando ambos tivessem idade para encher-lhe o colo de netos, não desdenharia vê-la casada com o filho, o qual não estando perto de ser um sapo, se encontrava, no entanto, a muito maior distância de ser um autêntico príncipe.

Chamava-se Palmira e arrancava-lhe um sorriso, sempre que lhe acachapava o cabelo com a palma da mão gasta de tantas vezes passá-la na cabeça do filho, para desculpá-lo junto do pai, de cada vez que ele se portava mal na escola e a professora escrevia uma nova queixa na caderneta.

Sem que ela a visse, Rita esgueirou-se na loja, de onde nunca saía com a sensação de levar para casa tudo o que precisava porque as prateleiras continuavam cheias depois de retirar o que queria. Parecia até que ao invés de pretenderem esvaziá-la, os clientes transportassem para lá os artigos que tinham na despensa.

O empregado mais antigo do estabelecimento era o homem do talho, que esquartejava a carne com uma faca tão afiada que nem precisaria de empregar um terço da força que usava. Tinha uns cinquenta anos e trinta e cinco de profissão, mas aparentava ser mais velho e ter menos experiência, respetivamente por causa do cabelo ralo grisalho e do facto de os bifes nunca estarem cortados ao gosto do pai de Rita, que os criticava por serem demasiado finos. Havia uma funcionária na charcutaria e outra na secção da fruta.

Rita aviou-se do queijo e dos ovos. De seguida, contou o dinheiro que trazia na carteira e atitou para dentro da sacola das compras, uma caixinha de pastilhas elásticas. Passou pelo balcão frigorífico onde se guardavam os congelados e bem à vista estavam as embalagens de filetes de pescada que se entretinha a descascar à mão, devorando cada pedaço como se fosse o último ou, daquele dia em diante, além da faina fluvial só houvesse pescadores de alto mar para irem atrás de robalos ou sardinhas. Punha de parte as espinhas que ia encontrando e no final contava-as, provavelmente para ter a certeza de que não tinha engolido nenhuma por distração.

Pagou o que devia e saiu. Bem diferente de quando se punha a ler os rótulos das embalagens que tinha à mão e obrigava a dona do estabelecimento a pensar onde caberiam tantos clientes em tão pequeno espaço, se todos fossem tão indecisos nas compras como ela e demorassem igual tempo a escolherem o que queriam levar para casa.

Pagou o que levava e saiu para a rua, onde havia um tão grande número de distrações que facilmente podiam rivalizar com as atrações de um circo. E não faltaria público em Lisboa para assistir a um bom espetáculo.

Chegavam perto do Natal, exibindo artistas que embandeiravam em arco com os seus feitos. Ora palhaços sem modos que encantavam as crianças, ora tratadores de feras que substituíam as gargalhadas dos palhaços pelas interjeições de espanto graças à coragem demonstrada. Outras vezes, eram trapezistas de consideráveis dotes físicos que competiam em pé de igualdade com a destreza de que mostravam ser capazes. Pelo meio, vinham os malabaristas que equilibravam pratos na cabeça e, a pedido do público, subiam para cima de rolos, dos quais não raras vezes caíam, provocavam uma risada maior na assistência em delírio do que as habilidades dos palhaços.

Rita construíra as personagens deste admirável mundo novo, ouvindo o pai ler-lhe as fábulas contadas na primeira pessoa pelas figuras saídas da imaginação de Esopo ou La Fontaine. Já a mãe, podia não ser tão fantasiosa, mas era muito mais convincente do que o pai na hora de mandá-la para a cama, empregando argumentos ainda mais válidos do que os usados pela cegonha, que foi hábil ao ponto de convencer a matreira raposa a ir até sua casa comer sopa a partir de uma garrafa com um gargalo particularmente estreito. Não tinha a capacidade inventiva de nenhum daqueles dois autores, mas ao marido já fizera acreditar em histórias ainda mais inimagináveis do que as que descreviam na floresta, a existência de animais que nasciam com o dom de falar, idêntico ao dos humanos.

Era fácil convencê-lo de uma enxaqueca que à noite a impedia de fazer-lhe companhia a ver televisão e um dia persuadira-o a colocar armários lacados brancos na cozinha, com a desculpa de que os de mogno de origem não iam bem com os cortinados novos que pusera no lugar de uns que substituíra só porque não combinavam com a cor da torradeira.

(Continua)

 

1 Comment

1 Comment

  1. Isabel ribas

    30/11/2016 at 23:08

    Mais uma vez despertaste o meu interesse na leitura d crónica pela sua qualidade,tanto da forma como do tema e conteúdo. Parabéns

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