Crónicas de Natal

As tradições de São João e o solstício de Inverno

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Antes de ir ao cerne desta crónica gostava de esclarecer os leitores de que é com desassombro que sempre vivi esta época, desde cedo, que me considero um racionalista crente e até já fui em tempo idos e por resultado de rebeldia ideológica um racionalista humanista (que é diferente de ateu pois esses são niilistas e vindo de onde eu venho dificilmente poderia abraçar uma teoria niilista na explicação do sagrado), deste modo a evolução desse racionalismo humanista para um panteísmo e posteriormente para um paneteísmo e daí para um racionalismo teísta crente foram passos na evolução filosófica que dei no meu entendimento do que é sagrado e do que nos enquadra nesse mesmo sagrado e por isso é sem nenhum problema que vos tentarei descrever e desconstruir as tradições que estão por detrás desta época a que se dá o nome de natalícia.

O solstício de Inverno

No fundo e em qualquer religião e crença, nesta época o que se celebra na realidade é o solstício de Inverno, ou seja e de forma leiga, o momento em que a noite é mais longa que o dia e o seu clímax que se dá por volta do dia 20 a 21 de Dezembro, deste modo celebra-se o inicio do Inverno (no hemisfério norte que é o berço da grande maioria das religiões e crenças que atualmente existem) mas também o facto dos dias crescerem, o que na antiguidade quando se tinha uma visão do cosmos menos complexa implicava que a Divindade (fosse ela qual fosse) estava a dar aos humanos a capacidade de recuperarem a Luz e por arrasto o das colheitas crescerem e poderem ser uma realidade, culminando essa devolução da Luz na sua totalidade no dia 20 ou 21 de Junho no chamado solstício de Verão (isto como é óbvio no hemisfério norte, visto que no hemisfério sul essa data será entre os dias 20 a 21 de Dezembro, sendo que o solstício de Inverno é no dia 20 ou 21 de Junho).

O solstício de Inverno num templo pagão

O solstício de Inverno num templo pagão

Por esse motivo precedeu às religiões teístas, neo-teístas ou dualistas teológicas tradicionais, enumerando-as por ordem de antiguidade (das que ainda se praticam) Hinduísmo, Zoroatrismo, Judaísmo, Jainísmo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, Sikhismo e Bahaísmo uma tradição pagã e tradicional baseada nos fenómenos naturais, estas religiões apenas tomaram para si essa tradição e a envolveram numa roupagem que envolve e mistura os seus mitos e ensinamentos fundadores e/ou profetas pelos quais guiam os seus pensamentos com as tradições pagãs atrás descritas (a origem e desenvolvimento do Taoísmo é filosófica naturalista e neo pagã e não tem nenhuma relação com as demais).

As tradições de São João

Seria muito extenso enumerar todos os festivais e tradições associados às religiões teístas, neo-teístas ou dualistas teológicas tradicionais apenas podendo referir que a grande maioria está associada à Luz e à Natalidade. No caso da tradição Cristã que segue os ensinamentos do profeta Cristo (de nome próprio Yeshua – em Hebraico – ou Iesous – em Grego, um Rabi Judeu nado e criado no Judaísmo e crente no D´us de Israel) podemos dizer que estão associadas aos dois João que na tradição Cristã representam os dois solstícios neste caso a São João Evangelista (o de Inverno) e a São João Batista (o de Verão), estes dois santos podemos também referir como seguro, vieram substituir a tradição romana de culto a Jano, o Deus romano das duas faces, o Deus das transições e das passagens, neste caso e nos solstícios de Verão da passagem da luz para as trevas e de Inverno da passagem das trevas para a luz, daí a ligação importante que se atribui nesta época à natalidade e à luz.

Não irei entrar nos pormenores simbólicos vastos que a analise de tal substituição de Jano pelos dois São João poderia levar, mas irei vos dar umas breves pistas de estudo que poderão desenvolver.

Os dois João referidos foram santos e têm as suas festividades muito próximas dos dois solstícios, assim São João Batista em 24 de Junho terá nascido e São João Evangelista tem a sua festa litúrgica no dia 27 de Dezembro, estes dias sempre por volta dos dois solstícios, o Natal sendo celebrado a 25 de Dezembro nunca poderia coincidir com a celebração deste santo, mas se não houvesse o Natal nessa data era nesse dia ou no dia anterior que de certeza se celebraria esse santo. E porquê guardar três dias sempre após os solstícios para celebrar cada um dos santos, pois bem, não foi ao terceiro dia que o Cristo renasceu, pois bem o mesmo se passaria com a celebração destes santos após o solstício, ao terceiro seriam celebrados/renasceriam.

"Freyja and the Necklace" por James Doyle Penrose

Freyja and the Necklace” por James Doyle Penrose

Mas São João Evangelista é celebrado num dos dias mais importantes do calendário mitológico germânico, pois dia 27 de Dezembro é o dia do nascimento de Freia, Frey ou Freya, citada na Völuspá que é o primeiro e um dos principais poemas da edda poética e que nos dá muita informação sobre os eventos futuros e passados em relação ao Deus Odin, esta é citada brevemente no poema, sendo mencionada quando os deuses se reúnem para romper o acordo com o construtor das muralhas de Asgard, a mesma é citada ainda nesta composição como a Deusa da magia, da adivinhação, da riqueza (pois as suas lágrimas transformavam-se em ouro), da sabedoria e era a líder das Valquírias, condutoras das almas dos mortos em combate, recebendo metade das almas mortas no seu palácio denominado Fólkvang, enquanto que Odin recebia a outra metade no Valhalla.

O interessante nesta tradição cristã é que a dado momento atribui-se a natalidade de São João Batista de dia 24 para 25 de Junho e a do profeta, Cristo de dia 24 para 25 de Dezembro, deste modo anulou-se as tradições solstíciais antigas pela natalidade das duas figuras mais importantes da religião Cristã, São João Batista ou o que batiza Cristo e lhe dá a purificação moral das suas Trevas e o nascimento de Cristo que tira a humanidade das Trevas dando-lhe a Luz quando esta mais precisa.

São João, o Apóstolo, por El Greco, quadro do Museu do Prado em Madrid

São João, o Apóstolo“, por El Greco, quadro do Museu do Prado em Madrid

Mas quem era São João Evangelista, é que se conhece tanto de São João Batista e tão pouco do Evangelista, pois bem segundo reza a tradição cristã era o apóstolo mais novo do Cristo, o que o acompanhou e que seguiu com este na noite em que foi preso e foi corajoso ao ponto de acompanhar o seu Profeta até à morte na cruz, a tradição dos evangelhos conta que este João esteve presente, e ao alcance deste, até à sua última hora e que lhe foi entregue a missão de tomar conta de Maria, a mãe do Cristo, em algumas correntes protestantes cristãs, a Bíblia indica que o profeta Cristo não era filho único de Maria (noutras que seria um meio irmão deste) porém que seria o irmão mais velho e por isso teria a responsabilidade de cuidar da sua mãe após a morte de José. Este São João foi também um dos familiares do Cristo (fosse irmão verdadeiro, meio irmão e/ou primo) que mais tempo durou (morreu segundo a tradição com 94 anos) e também mais influência teve na organização da Igreja Cristã primordial e na construção teológica da cosmogonia católica dos evangelhos, a este se deve a escritura do “evangelho segundo João” conhecido entre nós por o Livro da Revelação do Apocalipse.

Acho que ficam pistas suficientes para poderem aprofundar a relação entre os dois João e os dois solstícios, o de Verão e o de Inverno (e/ou Natal) nas tradições Cristãs, e deixo apenas uma pista final, porque é que a Maçonaria tem como patronos estes dois Santos?

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