Crónicas de Natal

Um conto de Natal…

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        Martim encontrava-se debruçado sobre o parapeito da janela do seu quarto a olhar para a rua. Lá fora nevava intensamente, e o frio de inverno que se fazia sentir quase que queimava a cara de Martim, sempre que ele encostava a testa ao vidro da janela. Mas nem o frio intenso fazia demover Martim da sua ansiosa espera. Tinham-se passado longos meses desde que o seu pai tinha partido em trabalho para outro país, e agora estava de regresso para passar o Natal com a família.

         — Martim, filho, sai da janela e vem para a sala. Está mais quentinho aqui. — disse a sua mãe, tentando disfarçar ela também a sua tremenda ansiedade para que o marido finalmente chegasse a casa.

            Mas Martim nem se moveu e nem sequer desviou o olhar da rua. A neve já tinha coberto por completo todo o relvado do quintal, assim como os passeios e até a estrada da rua. Estavam reunidas as condições necessárias para Martim cumprir a sua habitual tradição de Natal com o seu pai.

         Depois de mais uma veemente assobiadela do vento, Martim vislumbrou uma distorcida imagem ao fundo da rua, caminhando em direcção à sua casa. A ansiedade começou a tomar conta de Martim, de tal forma que lhe pareceu começar a ver tudo desfocado. Mas passados alguns segundos, a imagem começou a tornar-se mais nítida à medida que se ia aproximando da casa e finalmente Martim conseguiu vislumbrar a cara do seu pai a sorrir, como que anunciando que tinha finalmente chegado. Martim não conseguiu entender se o seu pai estava a sorrir para ele, ou simplesmente de felicidade por estar de regresso a casa depois de tantos meses longe da família.

         — Mãe! Mãe! Ele chegou! O papá já chegou! — gritava Martim, enquanto descia a correr que nem um louco as escadas que davam acesso ao piso de baixo.

         Sem ter tempo para pensar ou sequer agir, a mãe de Martim assistiu ao seu filho sair disparado para a rua, correndo descalço pela neve em direcção ao seu pai, apenas conseguindo esboçar um pequeno sorriso de felicidade pelo o facto de o seu marido estar de regresso a casa, alternando de seguida para um pequeno esgar por ver o filho a correr que nem um louco e completamente descalço na neve.

         Martim correu pequenos metros que lhe pareceram quilómetros, mas finalmente conseguiu alcançar o seu pai, que já estava ajoelhado na neve, com os braços abertos à espera do abraço do seu filho. Martim nem sentiu o frio a apoderar-se dos seus pés, pois o abraço do seu pai dava-lhe o calor necessário para se esquecer de tal facto.

         — Papá! Que saudades! — gritou Martim, tentando sobrepor-se ao barulho ensurdecedor que o vento fazia.

         — Filho, filho! Tu estás descalço! Queres adoecer, seu tontinho? Anda, vamos para dentro. Está muito frio aqui… — disse o pai de Martim, enquanto apertava o filho contra o seu peito e se levantava para ir refugiar-se do frio dentro de casa.

         A mãe de Martim estava à porta de casa sorrindo de uma forma estranhamente calorosa, a contrastar com a paisagem fria que rodeava aquela pequena família. Assim que o seu marido — que trazia Martim ao colo, abraçado a ele — alcançou a porta de casa, ela desatou a chorar abraçando-os de uma forma bastante veemente.

         — Vamos para dentro, minha família… — começou por dizer o Pai — que está um frio que não se pode e eu quero matar saudades de vocês os dois!

         — Sim, vamos… — respondeu a chorosa mãe de Martim, puxando-os para o interior da casa.

         Após muitos abraços e muitos beijos, os três passaram o resto do dia na sala, sentados no sofá em frente à lareira a matarem saudades. O pai de Martim trouxe algumas prendas para a sua mulher e para o seu filho, mas Martim tinha outra espécie de presente em mente. Não conseguia parar de pensar na tradição que ele e o seu pai faziam questão de cumprir todos os anos no Natal, e não queria sequer pensar em prendas.

         — Papá…

         — Diz, meu querido filho…?

      — Obrigado pelas prendas, mas… — começou por dizer Martim, tentado mostrar apenas com a expressão da cara, o que queria dizer.

         O pai de Martim olhou pausadamente para o seu filho durante alguns segundos e depois compreendeu imediatamente o que o filho queria…

         — Sim, filho… Fica descansado. Amanhã logo pela manhã vamos fazer o boneco de neve! Está prometido!

         — Obrigado, papá…

        — Vá, mas agora vamos para a cama porque temos de acordar bastante cedo amanhã e hoje já estamos bastante cansados. Além de que o pai está mesmo muito cansado da viagem. Sim?

         Tanto a mãe com o filho acenaram afirmativamente, e passados alguns minutos já estavam todos a deitar-se. Martim demorou a deixar-se adormecer, pois estava tão entusiasmado que só queria que chegasse o amanhã, para poder finalmente construir um boneco de neve com o seu papá…

***

         A manhã seguinte foi passada a construir o boneco de neve. Martim estava radiante pelo facto de, uma vez mais, estar a construir um boneco de neve com o seu pai. Se existia coisa que o deixava realmente muito feliz, era quando se juntava ao seu pai na construção de algo. Apesar de ter apenas 10 anos, Martim já construíra imensas coisas com o seu pai. Mas apesar de todas essas construções, o boneco de neve estava acima de todas elas — pois havia algo de mágico na construção daquele ser branco, com uma cenoura a fazer de nariz. E todos os anos, Martim desejava que aquele boneco de neve ganhasse, de alguma forma, vida para que pudesse brincar com ele. Mas isso nunca acontecia…

         Acabaram a construção por volta da hora de almoço, calhando a Martim colocar a cenoura a fazer de nariz. Pai e filho entreolharam-se por segundos, e o pai de Martim perguntou:

         — Então filho, já pensaste no nome que vamos dar ao boneco de neve, este ano?

         — Hum… Não sei bem, papá… Que tal… — Martim começou por dizer, mas reteve-se.

         — Que tal o quê, filho?

         — Que tal chamar-lhe de… Daniel?

         Pai e filho ficaram por momentos em silêncio. Daniel era o nome do irmão de Martim, que falecera há três anos atrás, com uma doença incurável. Martim sentiu-se na obrigação de homenagear, de certa forma, o seu irmão que já não estava entre eles.

         — É o nome do mano… — começou Martim por dizer — e eu acho que ficava bem neste boneco de neve, papá…

         — Sim, filho. Eu também concordo. Vamos chamar-lhe de Daniel.

         Pai e filho abraçaram-se e regressaram a casa, para se protegerem do frio e também porque tinham muita coisa para preparar para a ceia de Natal.

         A mãe de Martim passou o dia inteiro na cozinha a preparar o jantar de Natal, enquanto Martim e o pai ficaram encarregues de fazer a árvore de Natal. Enquanto ia ajudando a fazer a árvore de Natal, Martim não evitava ir espreitando pela janela para saber como estava Daniel, o boneco de neve. Ele não sabia bem explicar, mas de cada vez que olhava para o boneco parecia-lhe sentir ali a presença do seu irmão Daniel. Pensou em comentar isso com o seu pai, mas achou por bem não o fazer porque ele pensaria que ele estava a ficar maluco.

         Mais tarde, enquanto decorria o jantar de Natal, Martim não parava de espreitar pela janela, sempre que podia e sem os pais se aperceberem, o seu “irmão” Daniel. Ele sentia que algo de errado estava prestes a acontecer com aquele boneco de neve. Ele não sabia explicar bem o quê, mas sentia que alguma coisa não estava bem.

         A dada altura do jantar, Martim decidiu que devia ir visitar Daniel, o boneco de Neve, e levar-lhe alguma coisa para comer. Os seus pais olharam para ele de uma forma assustada, mas acabaram por aceitar aquele pedido estranho por parte do filho e deixá-lo ir lá fora. E foi quando Martim saiu à porta da rua que o mais estranho aconteceu…

         O boneco de neve, ou seja, o Daniel, tinha desaparecido sem deixar rasto. Martim correu para o local onde, anteriormente, estava ocupado com um boneco de neve, mas que agora estava vazio. Ajoelhou-se, com os joelhos a tocarem no frio da neve — mas sem que Martim desse por isso — e ficou ali por instantes a tentar descobrir o que tinha acontecido com o seu boneco de neve.

         — Não te preocupes, filho… Podemos sempre construir outro boneco de neve… — disse o seu pai, que entretanto já o tinha alcançado.

         — Mas eu não quero outro! Eu quero o Daniel! ­— respondeu Martim, levantando-se e correndo para casa, dirigindo-se para o seu quarto, mais propriamente para cima da sua cama, deitando-se de barriga para baixo, de mãos na cara e as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara abaixo.

         Após alguns minutos a chorar compulsivamente, Martim ouviu algo a mexer-se no seu quarto. Pensou tratar-se do seu pai ou da mãe que tinham vindo ao seu encontro para o tentar confortar, mas após olhar em redor e não ver ninguém, começou a ficar um pouco assustado…

         — Quem está aí?! — perguntou timidamente, Martim.

         — Olá, irmãozinho… — respondeu uma voz.

         Martim recostou-se na cama e, por momentos, ficou paralisado sem saber o que dizer ou fazer.

         — Não tenhas medo, eu não te faço mal, Martim. Eu sou o teu irmão, eu gosto muito de ti e só quero o teu bem…

         Aos poucos e poucos Martim começou a ganhar alguma coragem e arriscou proferir algumas palavras:

         — És tu, Daniel? És tu, o meu irmão?

         — Sim, sou eu…

         — Então, mostra-te! Onde estás?!

         — Estou aqui, mano… — retrucou Daniel, apresentando-se ao seu irmãozinho Martim.

         Vindo da sombra de uns cantos do quarto, Martim viu uma forma arredondada e esbranquiçada a formar-se ao seu olhar. Tratava-se de Daniel, o boneco de neve, que Martim tinha construído com o seu papá.

         — Olá, irmãozinho — disse o boneco de neve.

         — Da… Da… niel? Daniel! — Martim correu para o boneco de neve e abraçou-o de forma veemente, ficando imediatamente coberto de gelo.

         — Fica aqui! Vou chamar os pais! — disse Martim, saindo disparado do quarto para ir chamar os pais.

         Os pais de Martim ficaram preocupados com Martim, depois de ele dizer que o seu irmão Daniel estava no quarto dele sob a forma de um boneco de neve, mas mesmo assim não quiseram acreditar quando chegaram ao quarto do filho e encontraram o boneco de neve a olhar para eles.

         — Martim, eles não me podem ouvir… — disse o boneco de neve para o seu irmão. — Só tu podes ouvir-me, porque foste tu que tiveste a ideia de dar o meu nome a este boneco de neve.

         — Oh, mas assim eles não vão acreditar em mim, mano… — respondeu Martim, alternando o olhar entre os pais e o boneco de neve. — Eles vão pensar que estou a ficar maluco!

         — Não te preocupes com isso… Diz-lhes apenas aquilo que eu te disser, ok?

         — Ok…

         — Diz-lhe que eu gosto muito deles. Que eles não tiveram culpa nenhuma pelo o que me aconteceu. Diz-lhes que eu tenho consciência que eles fizeram tudo o que podiam para me salvar, mas que isso já não estava nas mãos deles. E, para que eles acreditem em ti, diz-lhe que as últimas palavras deles para mim foram: “Filho, vás para onde fores, quero que saibas que te iremos amar para todo o sempre! Espera por nós… porque um dia estaremos todos juntos outra vez, meu amor!”

         Martim ia repetindo todas as palavras ao mesmo tempo que Daniel, o boneco de neve, ia falando. Quando acabou de falar, olhou para os pais e constatou que estavam ambos ajoelhados no chão do seu quarto, abraçados e a chorar compulsivamente.

         — Irmãozinho, diz a eles para pararem de chorar… Eu tive autorização para vir passar a noite de Natal com vocês. Vamos aproveitar para matar saudades, antes que a noite acabe rápido demais…

         Após Martim repetir, uma vez mais, as palavras do seu irmão, os pais acenaram afirmativamente com a cabeça e, com o maior dos cuidados, decidiram levar o boneco de neve para a sala, para poderem todos acabar a noite de Natal juntos, em família.

***

         A noite de Natal foi passada na sala de jantar, com Martim a repetir as palavras do seu irmão, que ia contando como é viver no Paraíso e de todas as maravilhas que os esperam lá. Chegou a meia-noite e, após a acalorada e sempre animada troca de prendas, algo de trágico acabou por acontecer…

         O boneco de neve tinha desaparecido… Tinha acabado por derreter, devido ao calor que provinha da lareira, restando apenas uma enorme poça de água no chão da sala…

         Ninguém chorou. Ninguém lamentou aquilo ter acontecido. Ninguém ficou triste por aquela noite acabar daquela forma…

         Pois, afinal de contas, aquela noite mágica tinha sido a melhor noite das suas vidas…

FIM

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