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Vale da Ratinha – Último capítulo

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O encontro com o vazio. Depois de tanto tempo. O descanso que já cansa. O ler do mesmo livro. A sopa que já enjoa. E o cão que já não existe. Já não há mais nada. E tanto por fazer.

Estudos afirmam que é na solidão que reside a liberdade. Estudos de merda. E a capacidade de ouvir adquire um novo embalo de ar. Merda maior.

O Mosca partiu há duas semanas. Sem discussões. Sem percalços. Não se pode ter o que nunca se teve. Ou que nunca existiu. Que vai dar ao mesmo. A moça mistério desapareceu de igual forma. E o raio do Diamantino que nunca mais decide regressar a casa. Mas há algo que Leonor não sabe. Apesar de ler bastante. Apesar de degustar os livros da emblemática Agatha Christie. Apesar da fulgurosa escrita de José Rodrigues dos Santos. Apesar da parvoíce literária de Margarida Rebelo Pinto. Há coisas que escapam. E que devem escapar. Para não envolverem a loucura. E a loucura, por inúmeras vezes, comete absurdos. Como a Pareidolia. Que não é inconsequente.

A Pareidolia faz com que o cérebro desvende imagens onde elas não existem. O miolo reveste um estímulo desabitado e fortuito. Normalmente uma imagem ou um qualquer som. Caraterísticas entendidas como algo marcante e com aceção. O cérebro consegue ainda decifrar palavras que jamais foram pronunciadas.

A ilusão faz parte do entendimento humano. Desde sempre. E Leonor é uma pobre criatura que, por força das circunstâncias, desenvolveu um sentido por algo abstrato que encaixou na perfeição nos padrões concebidos pelo tino. O seu. Que sempre foi sovina. Lobrigar rostos é o mais comum.

Os tubarões andam desprendidos. Principalmente desde que viram a esperta da Leonor despedir-se de uma pedra da calçada. Como se de alguém se tratasse. A acenar a quietude. Para o horizonte distante e cada vez mais encharcado.

“O fim de uma relação é sempre difícil. As razões que conduzem a esse fim quase nunca são claras nem lineares. Se pesar na balança, separando o que estava bem daquilo que estava mal, honestamente não sei para que lado pende o fiel. O amor que ainda sinto por ele quer fazer prevalecer o lado bom, mas se aqui chegámos é porque, infelizmente, não foi esse que venceu.”

O fim protagonizado por Margarida Rebelo Pinto. Pela voz de Leonor. O cenário muito igual; a cozinha a cair, a loiça fria, a lareira esfumaçada, e a exaustão de estar só.

Prende o livro com a palma da mão esquerda. Enquanto a direita mexe o jantar. Um sopro de nada faz-se sentir.

“A nossa relação não terminou”

A colher de pau embate no chão, assim como o livro e todos os suspiros e lamentos. O abraço é duradouro. Os beijos intermináveis. Os apertos de uma morte quase anunciada. Quase.

“O jantar está pronto”

O desespero salta janela fora. O sorriso regressa sincero. A lei do amansamento a caminhar em cima das águas.

As hortas estão alagadas de ervas. As cores violentas. O céu deita-se como um leão. É o inverno a chegar ao fim. Levanta voo, resplandecente.

“Vou só tomar um banho”

Culminam as saudades de outros tempos. Uma saudade perdida nas palavras mais cruas.

“Estive perto de morrer”

“Prometo ficar”

“Mas ainda não é hora de chegares”

Porque é quando a morte se aproxima que a falta aperta. É a gargalhada que vibra no escuro. É o último amor. Para Leonor é o último amor. Diamantino; o coveiro salsicha amado.

“Deixa-me ir dar de comer ao cão”

No Vale da Ratinha nunca pisou um cão. Só o João da Antónia. Casados e traídos. Um cão, que o ilustre Diamantino fez questão de enterrar há mais de cinco anos.

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